sábado, 24 de setembro de 2016

Como ser Salvo


 “Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão”. (Lucas 13:24)

 Uma vez um homem fez ao nosso Senhor Jesus Cristo uma pergunta muito séria. Perguntou-lhe: “Senhor, apenas algumas pessoas serão salvas?”.

Não sabemos quem foi esse homem. Desconhecemos quais foram os motivos para que ele fizesse essa pergunta. Talvez quisesse satisfazer uma curiosidade qualquer, talvez quisesse apenas uma desculpa para não procurar por si mesmo a salvação. O Espírito Santo omitiu tudo isso de nós: o nome e o motivo do homem que procurava essas informações foram ambos vetados.

Mas a importância da resposta do Senhor a essa pergunta é muito clara. Jesus aproveitou a oportunidade para direcionar as mentes de todos que estavam ao Seu redor ao claro dever que cada um tinha. Ele sabia dos inúmeros questionamentos que a pergunta daquele homem havia provocado naqueles corações, Ele viu o que havia dentro deles. "Porfiai”, Ele disse, “por entrar pela porta estreita”. Quer tenham muitos salvos ou poucos, a sua ordem é clara: faça todo esforço para entrar. Agora é o tempo. O dia salvação é agora. Chegará o dia em que muitos procurarão entrar, mas já será tarde e não conseguirão. “Porfiai por entrar pela porta estreita”.

Quero chamar sua atenção para as sérias lições que essas palavras do Senhor Jesus desejam ensinar para nós, e as quais merecem nossa  total recordação nos dias de hoje. Tais palavras nos ensinam claramente a poderosa verdade de que é de nossa inteira responsabilidade a salvação de nossas almas, mostram o grande perigo em deixar de lado a necessidade de nos tornarmos verdadeiros cristãos, como muitos tem feito, infelizmente. Em ambos os pontos, o testemunho de nosso Senhor Jesus Cristo no texto é bem claro. Ele, que é o Deus eterno e sempre proferiu sábias palavras, disse-nos a todos nós “Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão” (Lucas 13:24).

I. Eis aqui uma "descrição” para se chegar à salvação. Jesus a chama de “porta estreita”.

II. Eis aqui uma “ordem” clara. Jesus diz, “Porfiai por entrar".

III. Eis aqui uma "profecia” assustadora. Jesus diz “Muitos procurarão entrar, e não poderão”.

 Que o Espírito Santo floresça o tópico dessa mensagem nos corações de todos os ouvintes hoje presentes! Que todos os que me escutam, experimentem a verdadeira salvação, obedecendo a ordenança do Senhor a fim de serem salvos no grande dia da segunda vinda de Cristo!

I. Eis aqui uma "descrição” para se chegar à salvação. Jesus a chama de “porta estreita”.

Existe uma porta que nos leva ao perdão, à paz com Deus e ao céu. Quem entrar por essa porta será salvo.
Com grande certeza, essa porta nunca foi tão necessária quanto hoje.

O pecado é uma montanha enorme entre o homem e Deus. Como a escalará o homem?

O pecado é uma parede altíssima entre o homem e Deus. Como passará o homem por ela?

O pecado é um grande abismo entre o homem e Deus. Como poderá o homem atravessá-lo?

Deus está no céu, santo, puro, espiritual, imaculado, iluminado, sem sinal algum de escuridão. Ele não tolera o que é maligno e nem olhar para o pecado. O homem é como um verme, rastejando-se na terra por alguns anos – pecaminoso, corrupto, errado, defeituoso – uma criatura cuja imaginação é dominada pelo mal e cujo coração é, acima de tudo, enganoso e desesperadamente mau. Como poderão Deus e o homem ficarem juntos? Como poderá o homem aproximar-se de seu Criador sem sentir medo ou vergonha? Bendito seja Deus, pois há uma forma! Há um caminho. Há uma trajetória. Há uma porta. É a porta falada nas palavras de Cristo, “a porta estreita”.

Essa porta foi “feita para os pecadores pelo Senhor Jesus Cristo”. Por toda a eternidade, Ele prometeu que a faria. Na plenitude do tempo, Ele veio ao mundo e a criou, por meio de Sua própria morte reconciliadora na cruz. Através dessa morte, Ele deu uma penitência para o pecado humano, pagou a dívida humana para com Deus e enterrou todos os castigos do homem. Ele construiu uma porta à custa de Seus próprios sangue e corpo. Ele ergueu uma escada na terra, cujo topo alcançava o céu. Ele fez uma porta pela qual os piores dos pecadores pudessem entrar na santa presença de Deus sem temer. Ele abriu um caminho pelo qual o mais vil dos homens, acreditando Nele, poderia se aproximar de Deus e ter paz. Ele nos afirma “Eu sou a porta, se alguém entrar por mim, salvar-se-á" (João 10:9). "Eu sou o caminho, ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14:6). “No qual”, diz Paulo, “temos ousadia e acesso com confiança, pela nossa fé Nele" (Efésios 3:12). Deste modo foi criada a porta para a salvação.

Essa porta é chamada de “a porta estreita” e tem um motivo para isso. Para algumas pessoas, ela é estreita, comprimida e difícil de passar; e assim continuará sendo, enquanto o mundo existir da forma como é. É estreita para todos que amam o pecado e estão determinados a não partir sem ele. É estreita para todos aqueles que depositaram suas alegrias nesse mundo e buscam primeiro os prazeres e recompensas mundanos. 

É estreita para todos que tem aversão a dificuldades e não estão dispostos a tomar suas dores e fazer sacrifícios pelas suas almas. É estreita para todos os que gostam de companhia e querem manter-se com a multidão. É estreita para todos os que são farisaicos e pensam que são boas pessoas e merecem ser salvas. Para todos, a maravilhosa porta feita por Cristo é estreita e comprimida. Em vão eles tentam passar por ela. A porta não os tolera. Deus não está relutante em recebê-los e seus pecados não são tantos assim para não serem perdoados, mas eles não querem ser salvos da maneira de Deus. Milhares, por muitos e muitos séculos, tentaram fazer do caminho à porta mais largo, milhares trabalharam e labutaram pesadamente a fim de chegarem ao céu de sua própria maneira. Mas a porta nunca muda. 

Ela não se expande, ela não vai se esticar para acomodar um homem em detrimento de outro. Ela ainda é a porta estreita. Tão estreita quanto essa porta possa ser, continua sendo “a única pela qual homens e mulheres podem entrar no céu”. Não há porta dos fundos, não há uma segunda estrada, não há uma brecha ou uma parte mais baixa na parede. Todos os que são salvos, assim o serão apenas por meio de Cristo e pela fé Nele. Ninguém se salvará apenas por arrepender-se. A tristeza de hoje não apaga nossas falhas de ontem. Ninguém será salvo pelas suas boas obras. 

As melhores obras que alguém pode fazer é um pouco melhor do que pecados impressivos. Ninguém será salvo apenas por ir à igreja, ler a Bíblia, orar, participar da Ceia do Senhor e honrar o seu dia. Quando fazemos tudo isso, continuamos sendo nada, apenas pobres servos descartáveis. É perca de tempo buscar qualquer outro caminho para a vida eterna. Homens e mulheres podem olhar para a direita ou esquerda e viverem conforme seus próprios métodos, mas eles nunca encontrarão outra porta. Homens e mulheres orgulhosos, se quiserem, podem não gostar da porta. Homens e mulheres depravados podem escarnecer dela e fazer piadas dos que a utilizam. 

Homens e mulheres preguiçosos podem reclamar que o caminho é árduo. Mas homens e mulheres não descobrirão outro meio para a salvação, a não ser a fé no sangue e na retidão do Redentor crucificado. Uma porta se posiciona entre nós e o céu, ela pode ser estreita, mas é a única. Devemos ou entrar para o céu através dessa porta estreita ou não entrar de forma alguma. Tão estreita quando essa porta possa ser, continua sendo “uma porta sempre disposta a abrir”. Nenhum pecador, de qualquer tipo, está proibido de se aproximar, quem quiser, poderá entrar e ser salvo. 

Há apenas uma condição para ser aceito: que você realmente sinta e odeie seus pecados, desejando ser salvo por Cristo à Sua maneira. Você está realmente ciente de sua culpa e maldade? Você verdadeiramente tem quebrantado e contristado seu coração? Olhe para a porta da salvação e entre. Ele, que a ergueu, declara “e o que vem a mim, de maneira nenhuma o lançarei fora” (João 6:37). 

A questão a ser considerada não é se você é um grande ou pequeno pecador, se você é eleito ou não, se você é convertido ou não. A questão é simplesmente essa: “Você sente e odeia seus pecados?”. Você se sente pesado e oprimido? Você está disposto a colocar sua vida nas mãos de Deus? Se esse é o caso, então a porta se abrirá para você. Venha hoje. Por que você permanece aí fora? Tão estreita quanto essa porta possa ser, ela continua sendo “a única pela qual milhares e milhares já passaram e foram salvos”. 

Nenhum pecador jamais voltou atrás e disse que era muito ruim para ser aceito, quando vinha enojado por seus pecados. Pessoas de todos os tipos foram recebidas, limpas, lavadas, perdoadas, vestidas e feitas herdeiras da vida eterna. Algumas delas não pareciam que seriam admitidas, você e eu talvez tenhamos pensado que elas eram muito pecadoras para serem salvas. Mas Ele, que ergueu a porta, não as recusou. Assim que bateram, Ele deu ordens para que elas pudessem entrar. 8 Manassés, rei de Judá, foi a essa porta. Ninguém era pior do que ele naquele tempo. 

Ele havia desprezado o exemplo e os conselhos de seu pai Ezequias. Ele ajoelhou-se para ídolos. Ele encheu Jerusalém de carnificina e crueldades. Ele assassinou seus próprios filhos. Mas assim que seus olhos se abriram para seus pecados e ele correu até a porta, buscando por perdão, ela abriu-se e ele foi salvo. Saulo, o fariseu, foi até essa porta. Ele blasfemou contra Cristo e perseguiu Seus seguidores. Ele trabalhou incessantemente a fim de impedir o progresso do evangelho. Mas assim que seu coração foi tocado e ele viu sua culpa, correndo para a porta e buscando por perdão, imediatamente ela se abriu e ele foi salvo. Muitos dos judeus que crucificaram nosso Senhor, foram até a porta. 

Eles foram, verdadeiramente, pecadores atrozes. Eles recusaram e rejeitaram seu próprio Messias. Eles O entregaram a Pilatos e rogaram para que Ele fosse crucificado. Eles preferiram liberar Barrabás e deixar que o Filho de Deus fosse morto. Mas no dia em que seus corações se convenceram da verdade, através da pregação de Pedro, eles foram direto à porta, buscar por perdão, e imediatamente ela se abriu e eles foram salvos. O carcereiro em Filipos buscou essa porta. Ele era um homem ímpio, cruel e duro. Ele fez tudo o que estava a seu alcance para tratar Paulo e seu companheiro asperamente. Ele os trancou numa prisão e prendeu seus pés num tronco, mas quando sua consciência se ergueu, por causa do terremoto, e sua mente logo se iluminou devido aos ensinamentos de Paulo sobre a Palavra de Deus, ele correu para a porta, buscando por perdão, e ela imediatamente se abriu, o salvando. 

Mas por que precisaria eu dar apenas exemplos bíblicos? Por que não contaria sobre a multidão que já foi à “porta estreita”, desde os tempos dos Apóstolos, e passaram por ela e foram salvos? Milhares de pessoas de todos os tipos, classes, idades – educados ou não, ricos 9 ou pobres, jovens ou velhos - foram até a porta e a encontraram aberta, passaram por ela e ganharam paz de espírito. Sim, milhares e milhares de pessoas ainda vivas provaram a efetividade dessa porta e encontraram nela o caminho para a verdadeira felicidade. Nobres e plebeus, comerciantes e banqueiros, soldados e marinheiros, fazendeiros e operários, trabalhadores qualificados ou não, ainda estão na terra e encontraram a porta estreita como sendo um caminho para a alegria e estrada para a paz. Eles não deram um relatório ruim sobre o que viram através da porta. Eles virão que o jugo de Cristo era suave e Seu fardo, leve. 

A única tristeza deles era porque poucos entravam e seu arrependimento era por não haverem entrado antes. Essa é a porta pela qual quero que todos vocês entrem. Não quero que você simplesmente vá à igreja, mas que vá com todo o coração e alma para a porta da vida. Não quero que você apenas creia que existe essa porta e que pense bem dela, mas que entre por ela através da fé e seja salvo. Pense que privilégio é ter uma porta como essa! Os anjos que não permaneceram fiéis a Deus, caíram e nunca mais se levantaram. Para eles, não havia nenhuma porta de escape aberta. 

Milhões de pagãos nunca sequer ouviram sobre o caminho para a vida eterna. O que eles teriam dado, se pudessem ter ao menos ouvido um sermão sobre Cristo? Os judeus no Velho Testamento viram a porta vagamente e de longe. “Dando nisto a entender o Espírito Santo que ainda o caminho do santuário não estava descoberto enquanto se conservava em pé o primeiro santuário” (Hebreus 10:8). Você tem a porta aberta claramente perante seus olhos, você tem Cristo e a salvação eterna oferecidos a você e nunca mais ficará perdido, sem saber para onde ir. 

Considere quão misericordioso isso é! Atente-se para que você não despreze a porta e pereça na descrença. Infinitamente melhor seria se você não tivesse tomado ciência dessa porta do que, tendo ouvido falar nela, permanecer do lado de fora. Como você escapará se negligenciar tamanha salvação? 

Pense na pessoa cheia de gratidão que você seria, caso tivesse entrado por essa porta estreita. Ser uma alma justificada, perdoada e absolvida, estar pronto para doenças, morte, julgamento e eternidade, sempre ser provido por ambos os mundos. Certamente isso seria um motivo para adoração diária. Verdadeiros cristãos devem ser mais agradecidos do que o que são. Acredito que poucos se lembram do que realmente eram por natureza e quão devedores são à graça. Um pagão observou que cantar hinos de adoração era uma marca especial dos cristãos antigos. Seria bom para os cristãos dos dias atuais saberem mais sobre essa disposição mental. Não há evidência alguma de um estado de mente sadia, quando há muita reclamação e pouca adoração. 

É uma misericórdia maravilhosa haver uma porta para a salvação, mas é uma misericórdia ainda maior quando somos ensinados a entrar por ela e sermos salvos. II. Em segundo lugar, eis aqui uma ordem clara. Jesus nos diz: “Porfiai por entrar pela porta estreita”. Sempre há muito a ser aprendido numa única palavra da Escritura. As palavras do nosso Senhor Jesus em particular, são sempre motivos para pensarmos. Eis aqui uma palavra que exemplifica muito bem o que estou falando. Vejamos o que o grande Mestre pode nos ensinar através da palavra “Porfiai”. “Porfiai” nos ensina que devemos usar de meios diligentemente, se queremos que nossas almas sejam salvas. 

Existem meios apontados por Deus para nos ajudar em nossos esforços em nos aproximarmos Dele. Existem maneiras pelas quais devemos andar, se queremos ser encontrados por Cristo. Adoração pública, leitura da Palavra, ouvir a pregação do evangelho, é isso a que me refiro. Eles permanecem, como sempre, no meio entre nós e Deus. Sem dúvida alguma, ninguém pode mudar seu próprio coração ou apagar seus pecados ou fazer-se aceitável a Deus, mas digo-lhes uma coisa, se não pudéssemos fazer nada, a não ser ficarmos parados, Cristo não nos haveria dito “Porfiai". 

 “Porfiai” nos ensina que homens e mulheres são livres e prestarão contas com Deus como adultos responsáveis. O Senhor Jesus não nos diz para esperarmos e apenas sentir, aguardar e desejar. Ele nos diz "Porfiai”. Eu chamo de religião inútil aquela que nos ensina a nos contentarmos com os dizeres “não podemos fazer nada por nós mesmos", fazendo com que as pessoas continuem em pecado. Isso é tão ruim quanto ensinar as pessoas que não é culpa delas se não são convertidas e que a culpa é inteiramente divina, caso não sejam salvas. Não encontro tal teologia no Novo Testamento. Escuto Jesus dizer aos pecadores “Venha, arrependa-se, creia, trabalhe, pergunte, bata”. 

Vejo claramente que nossa salvação, do início ao fim, é inteiramente “de Deus”, mas não vejo com menos clareza que nossa ruína, se perdido, seja inteiramente nossa. Acredito que pecadores são sempre vistos como responsáveis, e não vejo prova maior disso do que o significado expresso em "Porfiai". “Porfiai” nos ensina que homens e mulheres devem esperar muitas adversidades e batalhas difíceis, caso tenham suas almas salvas. E isso, falo por experiência própria, é verdade. Não há “ganho sem perda” nos assuntos espirituais e terrenos. Esse leão que ruge, o diabo, nunca deixará nenhuma alma escapar-se dele sem uma luta. O coração, que é naturalmente carnal e deseja coisas terrenas, nunca se converterá para a vida espiritual sem que haja luta diária. O mundo, com todas as suas oposições e tentações, nunca será superado sem conflitos. 

Mas por que isso nos surpreenderia? Quantos acontecimentos maravilhosos já foram realizados sem problema algum? O crescimento não ocorre sem arar e semear; riqueza não é obtida sem cuidado e atenção, sucesso na vida não é alcançado sem privação e trabalho; e céu, acima de tudo, não é conseguido sem a cruz nem a batalha. “Se faz violência ao reino dos céus, e pela força se apoderam dele” (Mateus 11:12). Homens e mulheres devem “porfiar”. “Porfiai” nos ensina que vale a pena buscar a salvação. Se há algo nesse mundo que merece nossa luta, esse algo é a prosperidade de nossa alma. Os motivos pelos quais a grande maioria dos humanos  "porfiam” são comparativamente pobres e triviais. Riqueza, grandeza, classe e educação são “coroas corruptíveis”. 

As coisas incorruptíveis estão todas além da porta estreita. A paz de Deus, que ultrapassa todo entendimento, a esperança de um futuro bom no porvir, a sensação de que o Espírito Santo habita em nós, a consciência de que somos perdoados e estamos salvos, preparados, seguros, providos por toda a eternidade, não importa o que aconteça. Essas sim são riquezas verdadeiras e eternas. É bom e vantajoso que o Senhor Jesus nos alerte a “porfiar”. “Porfiai” nos ensina que a preguiça para com o cristianismo é um grande pecado. Não é apenas um infortúnio, como muitos acreditam, algo pelo qual as pessoas devem ter dó e arrependimento. É algo que vai muito além disso. É a quebra de um mandamento muito claro. O que será dito do homem ou da mulher que violar a lei de Deus e fizer algo que Deus ordena claramente a não fazer? Para isso, há apenas uma resposta: eles são pecadores. “Qualquer que comete pecado, também comete iniquidade” (I João 3:4). 

E o que será dito do homem ou da mulher que negligenciar sua alma e não fizer esforço algum para entrar pela porta estreita? Para isso, há apenas uma resposta. Eles estariam omitindo um dever explícito. Cristo diz “Porfiai”, mas, olhem, eles continuam parados! “Porfiai” nos ensina que todos aqueles do lado de fora da porta estreita estão em grande perigo. Eles perigam perderem-se e se atormentarem para sempre. Existe apenas um passo entre eles e a morte. Se a morte os encontrar em sua condição presente, eles perecerão sem esperança alguma. O Senhor Jesus viu isso claramente. Ele sabia da incerteza da vida e da brevidade do tempo; Ele se alegra em ver pecadores se apressarem e não se atrasarem, para que se livrem de sua alma pecaminosa antes que seja tarde demais. Ele fala como aquele que viu o diabo aproximar-se deles diariamente e os dias de suas vidas decaírem gradualmente. Ele zelaria para que tivessem o cuidado de não esperar demasiado, por isso, Ele grita, “porfiai”. 

Essa palavra, "porfiai", levanta pensamentos sérios na minha mente. Ela é cheia de condenação para milhares de pessoas batizadas. Ela condena os meios e as práticas de multidões que se auto-professam cristãos. Existem muitos que não juram, nem assassinam, nem cometem adultério, nem roubam ou mentem, mas há algo que, infelizmente, não pode ser dito sobre eles, não se pode dizer que porfiam a fim de serem salvos. O espírito da “inatividade” domina seus corações em tudo quando o assunto é cristianismo. Eles estão muito ocupados com as coisas do mundo, levantam-se cedo, dormem tarde, trabalham, labutam, ocupam-se, são cuidadosos, mas a única coisa que eles precisam realmente executar, não o fazem: eles nunca "porfiam" pelas coisas de Deus. 

1. O que direi sobre aqueles que são irregulares sobre a adoração pública de Deus aos domingos? Existem milhares que se adéquam a essa descrição. Algumas vezes, quando se sentem inclinados, vão à igreja e atendem ao serviço religioso; em outras, ficam em casa e lêem um livro, deitam-se, revêem suas contas ou buscam por alguma diversão. Isso é estar porfiando? Eu falo a homens e mulheres de senso comum. Deixe-os julgar o que digo. 

2. O que direi daqueles que vem regularmente adorar a Deus aos domingos, mas apenas pró-forma? São muitas as pessoas do nosso país que se encontram nessa condição. Seus pais a ensinaram a vir; o costume sempre foi vir, não seria respeitoso deixá-lo de lado. Quando eles comparecem à igreja, nem sequer se importam em adorar a Deus. Se escutam sobre lei ou evangelho, verdade ou mentira, isso dá no mesmo para eles, até porque não se lembram de nada depois. Tendo em vista que tiram seus moldes religiosos, assim como suas roupas de domingo, e voltam ao velho mundo. Isso é estar porfiando? Eu falo a homens e mulheres de senso comum. Deixe-os julgar o que digo.  

3. O que direi daqueles que raramente – ou nunca – lêem a Bíblia? Existem milhares que se adaptam a essa descrição. Eles conhecem a Bíblia por nome, eles sabem que é o único Livro que nos ensina como viver e morrer, mas nunca encontram tempo para lê-lo. Jornais, reportagens, livros, romances, tudo isso eles podem ler, menos a Bíblia. E você chama isso de porfiar? De entrar pela porta estreita? Eu falo a homens e mulheres de senso comum. Deixe-os julgar o que digo. 

4. O que direi daqueles que nunca oram? Existem muitos, afirmo veementemente, nessa condição. Sem Deus eles acordam e novamente sem Ele, eles se deitam à noite. Eles não pedem por nada, não confessam nada, não agradecem por nada e nem buscam nada. São todas criaturas entregues à morte e, mesmo assim, deixaram de falar com seu Criador e Juiz! Isso é estar porfiando? Eu falo a homens e mulheres de senso comum. Deixe-os julgar o que digo. É muito sério ser ministro do Evangelho. É doloroso observar o homem e perceber a forma com que atuam em relação a assuntos espirituais. Nós seguramos firmes em nossas mãos o grande Livro de Deus, o qual declara que sem arrependimento, conversão, fé em Cristo e santidade, nenhum ser humano pode ser salvo. 

Como um cumprimento de nosso ofício, nós ansiamos para que homens e mulheres se arrependam, acreditem e sejam salvos, mas, para nossa aflição, muitas vezes lamentamos, porque nosso trabalho parece ser vão. Homens e mulheres vão à igreja, escutam, concordam, mas não "porfiam" para serem salvos. Nós mostramos a pecaminosidade do pecado, nós expomos a amabilidade de Cristo, mostramos a vaidade do mundo, levantamos o regozijo que é o serviço de Cristo, oferecemos a água da vida aos cansados e sobrecarregados, mas, para nossa tristeza, muitas vezes parece que falamos aos ventos. Nossas palavras são ouvidas pacientemente aos domingos, nossos argumentos não são refutados, mas vemos claramente durante a semana que homens e mulheres não porfiam para serem salvos. Então, eis que vem o diabo na manhã de segunda-feira, armando incontáveis ciladas; eis que vem o mundo e apresenta seus prêmios enganosos. Nossos ouvintes sofregamente o seguem. 

Eles trabalham duro para receber benesses do mundo, trabalham pesado para as licitações do diabo, mas a única coisa que precisam fazer, não fazem: não porfiam por hipótese alguma. Isso que escrevo não é por ouvir falar. Eu falo porque tenho visto. Escrevo o resultado de trinta e sete anos de experiência no ministério. Durante esse período, aprendi lições sobre a natureza humana que nunca soube antes. Agora vejo quão verdadeiras são as palavras do Senhor sobre o caminho estreito. Tenho visto quão poucos são os que verdadeiramente porfiam para serem salvos. Seriedade em problemas passageiros é comum. Esforço para tornarse rico e próspero nesse mundo não é algo raro. Afligir-se por dinheiro, negócios, política, trocas, ciência, finas artes, entretenimento, aluguel, salário, trabalho, terras, esse tipo de aflição vejo abundantemente tanto na cidade quanto no interior. Entretanto vejo poucos que se afligem por suas almas, vejo poucos que porfiam para entrar pela porta estreita. Não estou, contudo, de modo algum surpreso por isso. 

Na Bíblia vi que isso é a única coisa pela qual devo esperar. A parábola da grande ceia é uma imagem exata das coisas que tenho visto com meus próprios olhos, desde que me tornei ministro (Lucas 14:16). Como meu Senhor e Salvador diz, acredito que homens e mulheres dão desculpas. Um tem um pedaço de terra para ver, outro tem seus bois para provar, um terceiro sofre com problemas familiares. Mas nada disso previne meus sentimentos de profunda tristeza pelas almas desses homens e mulheres. Entristeço-me em ver que eles têm a vida eterna tão próxima deles e, mesmo assim, estão perdidos, porque não porfiam para entrar pela porta e serem salvos. 

 Não sei em qual estado de mente muitos de vocês estão. Mas avisoos para que tenham cuidado, para que não pereçam eternamente, porque não porfiaram. Não pensem que é necessário um pecado encarnado para trazê-lo à cova da destruição. Você deve apenas sentar e não fazer nada e, assim, mais cedo ou mais tarde, você se encontrará na beira do inferno. Sim, o diabo não o pede para que ande nos mesmos passos de Caim, Faraó, Acabe, Beltesazar e Judas Iscariotes. Existe outra estrada que o leva ao inferno, o cominho da lentidão, da preguiça e da indolência espiritual. O diabo não tem objeção alguma a você sendo um membro respeitável da Igreja Cristã. Ele o deixará dar suas ofertas, permitirá que se sente confortavelmente na igreja todo domingo enquanto viver. Ele sabe muito bem que se você não porfiar, mais cedo ou tarde você virá ao lugar onde o verme destruidor nunca morre e o fogo nunca se apaga. Cuide para que não chegue a este fim. 

Repito, “basta que você não faça nada, para que se perca”. Se você tem sido duro e não porfia pelo bem de sua alma, suplico-lhe para que nunca pense que irá muito longe. Nunca dê lugar à ideia de que você está preocupado demais com sua condição espiritual e que não há motivos para tamanho cuidado. Coloque no seu coração que em todo trabalho há lucro, mas que não há trabalho mais lucrativo do que aquele relacionado à alma. Entre os fazendeiros há a máxima de que quanto mais fazem pela terra, mais a terra faz por eles. Deveria haver também uma máxima entre os cristãos, a de que quando mais eles fazem pela sua cristandade, mais ela fará por eles. Tome cuidado com qualquer inclinação para o descuido para com a leitura bíblica, a ida à igreja, o orar e o participar da Ceia do Senhor. 

Tome cuidado ao diminuir suas orações, leituras bíblicas e sua comunhão particular com Deus. Tome cuidado para que você não se entregue à imprudência, à preguiça de participar de serviços semanais na Igreja. Lute contra qualquer tendência a ser sossegado, crítico, julgador, enquanto escuta a pregação do Evangelho. Tudo o que você fizer para Deus, faça-o com todo o coração, mente e força. Em outras coisas sejam moderados e temerosos com ir para extremos. Quanto à alma, temam a moderação tanto quanto você temeria uma praga. Não se preocupe com o que homens e mulheres possam pensar sobre você. Que, para você, baste simplesmente que o Mestre diga “porfiai”. 

III. Minha última consideração hoje é a profecia terrível feita pelo Senhor Jesus. Jesus diz “Muitos procurarão entrar, e não poderão”. Quando será isso? Em qual período a porta para a salvação se fechará para sempre? Quando porfiar já não adiantará mais nada? Essas perguntas são muito sérias. A porta, agora, está disposta a abrir-se para o pior dos pecadores, mas virá o dia em que ela já não mais abrirá. O tempo dito pelo nosso Senhor será o tempo em que Ele julgará o mundo. A paciência de Deus finalmente chegará ao fim. O trono da graça será tomado e, em seu lugar, será colocado o trono do julgamento. A fonte da água viva será fechada. A porta estreita será finalmente fechada e separada. O dia de graça acabará. O dia do julgamento final chegará ao mundo, que jaz no pecado. 

E então virá o que foi profetizado pelo Senhor Jesus: "muitos procurarão entrar, e não poderão". Todas as profecias da Escritura já cumpridas até hoje, foram cumpridas ao pé da letra. Para muitos elas pareciam improváveis, impossíveis, até que se cumpriram. Nenhuma profecia jamais falhou. As promessas de “boas novas” se cumpriram, apesar de parecem feitos dificílimos: 

1. Sara deu à luz um filho, quando já havia passado da idade de engravidar. 

2. Os filhos de Israel foram tirados do Egito e viveram na terra prometida. 

3. Os judeus foram redimidos do cativeiro da Babilônia depois de 70 anos e puderam, mais uma vez, construir o templo. 

4. O Senhor Jesus, nascido de uma virgem, viveu, ministrou, foi traído e crucificado, assim como as Escrituras previram precisamente. A Palavra de Deus profetizou em todos esses casos. E eles foram concretizados. As predições sobre julgamentos em cidades e nações foram realizadas, apesar de naquela época, quando foram primeiramente profetizadas, pareciam inacreditáveis. Edom é um deserto; Tiro é uma rocha para secar redes; Nínive, que era a melhor das cidades, foi destruída e tornou-se uma desolação; Babilônia é uma terra seca e um deserto, suas paredes extensas estão completamente derrubadas. A Palavra de Deus previu todos esses casos. E assim aconteceram. A predição feita pelo Senhor Jesus Cristo, pronunciada aqui hoje, também será concretizada. Nenhuma palavra dessa sentença falhará, quando chegar o tempo para que sua realização seja executada. Jesus disse: “Muitos procurarão entrar, e não poderão”. 

Chegará o dia em que buscar a Deus será inútil. Homens e mulheres, lembrem-se disso! Muitos parecem acreditar que nunca chegará a hora em que buscarão, mas não acharão. Eles estão seriamente enganados. Um dia eles descobrirão seus erros e perceberão que perderam, a não ser que se arrependam. Quando Jesus diz “Muitos procurarão entrar, e não poderão”. Chegara o dia em que muitos serão expulsos do paraíso para sempre. Não será apenas uma minoria, mas uma grande multidão. Isso não ocorrerá apenas com um ou dois aqui e mais um ou dois 19 acolá, será o miserável fim de uma vasta multidão. “Muitos procurarão entrar, e não poderão”. Muitos cairão em si já tarde demais. 

Eles finalmente verão o valor de uma alma imortal e a felicidade de ser salvo, finalmente entenderão seus próprios pecados, a santidade de Deus e a conveniência gloriosa do Evangelho de Cristo, finalmente compreenderão porque ministros pareciam são ansiosos e pregavam por tanto tempo, implorando tão severamente para que seus ouvintes se convertessem. Entretanto, para a aflição dessas pessoas, eles saberão disso tudo tarde demais! Arrependimento virá a muitos quando for tarde demais. Eles descobrirão suas próprias maldades e se envergonharão completamente de seus passados. Eles se arrependerão amargamente e se encherão de vãos remidos, de convicções vivas e de dores penetrantes; chorarão, gemerão e lamentarão, quando se derem conta de seus pecados. 

A recordação de suas vidas será penosa para eles, o fardo de sua culpa será intolerável, mas, para sua angústia, assim como Judas Iscariotes, eles se arrependerão tarde demais. Fé virá a muitos tarde demais. Eles já não serão capazes de negar a existência de Deus e do diabo, do céu e do inferno. Falsas religiões, ceticismo e infidelidade serão abandonados para sempre. Zombarias, piadas e liberdade de pensamento cessarão. Eles verão com seus próprios olhos e sentirão com seus próprios corpos, que as coisas sobre as quais os ministros pregaram, não eram apenas contos de fadas narrados engenhosamente, mas grandes verdades. Eles verão que a religião evangélica não era um serviço insolente, extravagante, fanático e sensacionalista. Eles descobrirão que Ele era a única coisa de que precisavam e que a falta de vontade causou-lhes a perdição eterna. Como o diabo, eles finalmente acreditarão e temerão, mas será tarde demais! 

O desejo de salvação virá a muitos tarde demais. Eles ansiarão por perdão, paz e favor de Deus, quando já não poderão mais tê-los. Eles desejarão ter mais um domingo, mais uma oferta de perdão, mais uma chamada à oração. Entretanto, já não mais importará o que eles pensam, sentem ou desejam, o dia da graça terá acabado e a porta da salvação será fechada. Será tarde demais! Muitas vezes penso na grande mudança que ocorrerá um dia no preço e na estima com a qual tantas coisas são vistas. Observo esse mundo no qual minha sorte foi lançada, percebo o preço corrente de tudo o que ele oferece, olho para a vinda de Cristo e o grande dia de Deus. Penso na nova ordem das coisas que esse dia trará; leio as palavras de nosso Senhor Jesus, quando Ele descreve o homem da casa levantando-se e fechando a porta. E, enquanto leio, digo a mim mesmo, "haverá uma grande mudança em breve”. 

O que são as coisas importantes agora? Ouro, prata, pedras preciosas, dinheiro, minas, navios, terras, casas, cavalos, carros, móveis, comida, bebida, roupas e assim vai. Existem as coisas que acreditamos serem valiosas; existem coisas que exigem um mercado pronto; existem coisas que você não consegue obter por menos de certo preço. Aquele que tem muitas dessas coisas, é considerado um homem rico. Assim é o mundo! O que seriam as coisas baratas, então? O conhecimento de Deus, a salvação do Evangelho, a generosidade de Cristo, a graça do Espírito Santo, o privilégio de ser filho de Deus, a vida eterna, o direito à árvore da vida, a promessa de uma morada na casa do Pai, no céu, as promessas de uma herança incorruptível, a oferta de uma coroa de glória que não se desfalece. 

Essas são coisas pelas quais nem homem nem mulher realmente se importam. Eles são oferecidos a homens e mulheres sem preço algum, podem ser adquiridos sem nada em troca, é de graça. Quem quiser, pode pegar. Mas, infelizmente, não há demanda para essas  coisas! Eles imploram para serem vistos, mas quase não são percebidos. São oferecidos em vão. Assim é o mundo! Mas está chegando o dia em que o valor de tudo será alterado. Chegará o dia em que o dinheiro será tão inútil quanto trapos e ouro será tão desprezível quanto a poeira. Chegará o dia em que milhares de pessoas não se importarão mais com as coisas pelas quais antes viviam e desejarão tudo o que antes desprezaram. 

As mansões e os palácios serão esquecidos e casa que não é feita por mãos será desejada. Os favores dos ricos já não serão mais lembrados, mas sim os favores do Rei dos reis. Sedas, cetins, veludos e laços se perderão de vista ante a ânsia pelo manto da retidão de Cristo. Tudo será alterado, tudo será mudado no grande dia da segunda vinda do Senhor. “Muitos procurarão entrar, e não poderão”. Um homem sábio disso algo muito importante, que "o inferno é a verdade descoberta tarde demais”. Temo que muitos dos cristãos professos descobrirão essa verdade por experiência própria. Eles descobrirão o valor de suas almas quando for tarde demais para conseguir misericórdia e verão a beleza do evangelho quando não puderem tirar beneficio algum dele. 

Esses homens e mulheres deveriam ter sido mais sábios em vida! Constantemente penso sobre as passagens das Escrituras e vejo que existem poucas mais tremendas que aquela do primeiro capítulo de Provérbios: Mas porque clamei e vós recusastes; porque estendi a mão e não houve quem atendesse; antes, rejeitastes todo o meu conselho e não quisestes a minha repreensão; também eu me rirei na vossa desventura, e, em vindo o vosso terror, eu zombarei, em vindo o vosso terror como a tempestade, em vindo a vossa perdição como o redemoinho, quando vos chegar o aperto e a angústia. 

Então, me invocarão, mas eu não responderei; porcurar-me-ão, porém não me hão de achar. Porquanto aborreceram o conhecimento e não preferiram o temor do Senhor; não quiseram o meu conselho e desprezaram toda a minha repreensão. Porquanto comerão do fruto do seu procedimento e dos próprios conselhos se fartarão. Provérbios 1:24-31 Alguns de vocês talvez sejam daqueles que não gostam da fé e nem de praticar aquilo que o evangelho de Cristo nos ordena. Você pensa que é extremismo quando lhe imploramos para que se arrependa e se converta. Você pensa que pedimos muito quando rogamos para que saia desse mundo e carregue a cruz, seguindo a Cristo. Um dia, entretanto, saiba que você confessará que estávamos certos. Mais cedo ou mais tarde, nesse mundo ou no próximo, você verá que estava errado. Sim! É uma consideração triste para um ministro fiel ao evangelho, de que todos os que o escutam um dia confessarão que seus conselhos eram bons. 

Mesmo que seu testemunho seja alvo de zombaria, desdém, escárnio e negligência nessa terra, o dia no qual será provado que toda a verdade estava do nosso lado chegará. O homem rico que nos escuta e, mesmo assim, faz do seu mundo um deus, o homem de negócios que nos escuta e, ainda assim, faz de seus livros contábeis sua Bíblia, o fazendeiro que nos escuta, mas permanece frio como o barro em sua terra, o trabalhador que nos escuta e continua com sua alma dura como pedra: todos, no tempo devido, confessarão diante do mundo que estavam errados. Todos, no tempo devido, desejarão aquela misericórdia que agora lhes é vã. “Muitos procurarão entrar, e não poderão”. Alguns de vocês talvez sejam aqueles que amam o Senhor Jesus Cristo com sinceridade. Você pode, então, se confortar quando olhar para a eternidade. Você constantemente sofre perseguições agora, por causa de Cristo. Você tem que suportar palavras duras e 23 insinuações indelicadas. Seus motivos são frequentemente deturpados e sua conduta é difamada. 

A censura à cruz ainda não acabou, mas você pode se encorajar quando olhar adiante e pensar na segunda vinda de Cristo. Esse dia trará correções a todos. Você verá aqueles que agora zombam de você, porque lê a Bíblia, ora e ama a Cristo, num estado de mente completamente diferente. Eles virão a vocês como as virgens néscias foram às sabias, dizendo “Dainos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas se apagam” (Mateus 25:8). Você verá aqueles que agora o odeiam e o chamam de tolo por trazer um bom testemunho do serviço de Cristo, assim como Calebe e Josué também trazia. Um dia eles dirão: “Ah, se o tivéssemos escutado! Você tem sido o verdadeiro sábio e nós, os tolos”. Entretanto, irmãos e irmãs, não temam a censura dos homens. Confessem Cristo corajosamente perante o mundo. Mostrem suas cores e não se envergonhem do vosso Mestre. O tempo é curto, a eternidade se apressa. Temos a cruz apenas por pouco tempo, mas a coroa é para sempre. “Muitos procurarão entrar, e não poderão”. 

Agora, deixe-me oferecer a todos vocês algumas palavras de despedida, para que possam aplicar às suas almas tudo o que foi tratado aqui. Vocês escutaram as palavras do Senhor de forma esclarecida e explanada. Vocês viram a ilustração de como chegar à salvação, a porta estreita, ouviram o mandamento do Rei: "Porfiai por entrar pela porta estreita”, vocês têm sido alertados de seu aviso solene, "muitos procurarão entrar, e não poderão”. Tenham ainda um pouco mais de paciência comigo, enquanto tento gravar essas questões no seu subconsciente. Ainda tenho algo a dizer a favor de Deus. Primeiro, farei uma pergunta simples. Você entrou pela porta estreita ou não? Novo ou velho, rico ou pobre, religioso ou ateísta, repito a questão, você entrou pela porta estreita ou não?  

Não pergunto se você já ouviu falar nela e acredita que a porta realmente existe. Não pergunto se você já a observou e admirou-a, se espera um dia passar por ela. Pergunto se você foi até essa porta, bateu, foi aceito e agora passou por ela. Se não passou, que benefício ganhou da sua religião? Você não está perdoado. Você não está reconciliado com Deus. Você não é nascido de novo, nem santificado e nem adequado para o céu. Se você morrer como está, você viverá no mesmo lugar de tormenta que o diabo e sua alma será para sempre miserável. Pense que situação será morar num lugar assim! Pense, acima de todas as coisas, o estado que é morrer assim! Sua vida não passa de vapor. Apenas mais alguns anos e você estará morto, seu lugar no mundo será em breve substituído, sua casa será ocupada por outros. O sol continuará a brilhar, a grama e as flores crescerão sobre sua cova, seu corpo servirá de comida para vermes e sua alma estará perdida por toda a eternidade. E por todo esse tempo permaneceu aberta para você a porta da salvação. Deus o convida. Jesus Cristo se oferece para salvá-lo. Todas as coisas estão prontas para a sua libertação. 

Só falta isso, que você queira ser salvo. Pense sobre tudo isso e seja sábio! Segundo, darei um conselho claro a todos os que ainda não passaram pela porta estreita. Esse conselho é simples: Entre e não deixe para amanhã. Diga-me, se puder, o nome de alguém que conseguiu chegar ao céu sem passar pela porta estreita. Não conheço nenhum. De Abel, o primeiro homem a morrer, até o último nome da lista bíblica, não vejo ninguém sendo salvo, se não pela fé em Cristo. Diga-me, se puder, o nome de alguém que já entrou pela porta estreita sem porfiar. Não conheço nenhum, a não ser aqueles que morreram ainda criança. 

Aquele que quer ganhar o céu deve lutar por ele. Diga-me, se puder, o nome de alguém que lutou duramente para entrar e não obteve sucesso. Não conheço nenhum. Não importa quão ignorante ou fraco um homem ou uma mulher possam ser, eles nunca ficarão sem uma resposta de paz, caso procurem pela vida eterna de forma consciente. Diga-me, se puder, o nome de alguém que entrou pela porta estreita e arrependeu-se depois. Não conheço nenhum. Acredito que as passadas na soleira da porta foram todas em uma única direção. Elas viram que era bom servir a Cristo e não se arrependeram de tomar consigo Sua cruz. Se tudo isso é verdade, busque a Cristo sem demora e entre pela porta da vida enquanto há tempo! Tenha um recomeço hoje mesmo. Vá em oração ao Salvador, que é misericordioso e todo-poderoso, e desabafe. 

Confesse-Lhe sua culpa, sua maldade e seu pecado. Abra seu coração livremente a Ele, não esconda nada. Diga-Lhe que você deposita em Suas mãos a sua vida e todos os seus negócios; peça para salvá-lo conforme Sua promessa e deixe entrar em você o Santo Espírito de Cristo. Eis aí o suficiente para encorajá-lo a fazê-lo. Milhares de pessoas tão maldosas quanto você buscaram a Cristo e nenhuma delas foi posta de lado e recusada. Eles encontraram uma paz de espírito que nunca antes haviam sentido e agora andavam mais alegres. Eles encontraram força para lidar com as batalhas da vida e Deus não permitiu que nenhum deles perecesse no deserto. Por que não deveria você buscar a Cristo? Eis aqui vários motivos que o encorajam a buscá-lo imediatamente. Não vejo motivo algum para que seu arrependimento e sua conversão não ocorram agora, como ocorreu a outros antes de você.  

A mulher samaritana, quando foi ao poço, era uma pecadora ignorante, mas retornou à sua casa como nova criatura. O carcereiro de Filipos saiu das trevas para a luz e tornou-se um discípulo professo de Cristo no mesmo dia. Por que não deveriam outros fazer o mesmo? Por que você não deveria abrir mão de seus pecados e confiar em Cristo hoje mesmo? O conselho que estou dando a vocês é bom. A grande pergunta é: você o acatará? A última coisa que tenho a fazer é uma solicitação a todos os que já entraram pela porta estreita. Meu pedido é que vocês contem aos outros a bênção que encontraram através da porta. 

Quero que todos os convertidos sejam missionários. Não peço para que partam para terras estrangeiras e preguem aos pagãos, mas gostaria que todos tivessem um espírito missionário e se esforçassem para dar um bom exemplo em casa. Quero que testifiquem a todos que a porta estreita é o caminho para a felicidade, persuadindo-os a entrar por ela. Quando André se converteu, ele encontrou seu irmão Pedro e o disse: “Encontramos o Messias” (isto é, o Cristo). E ele o trouxe a Jesus (João 1:41,42). 

Quando Felipe se converteu, encontrou Natanael e disse-lhe “ „Havemos achado aquele de quem Moisés escreveu na lei, e os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José‟. Disse-lhe Natanael: „Pode vir alguma coisa boa de Nazaré? ‟ 'Vem e vê‟, disse Felipe” (João 1:45,46). Quando a mulher samaritana se converteu, “Deixou, pois, o seu cântaro, e foi à cidade, e disse aqueles homens: Vinde, vede um homem que me disse tudo quanto tinha feito. Porventura não é este o Cristo?” (João 4: 28,29). Quando Saulo, o fariseu, converteu-se, “E logo nas sinagogas pregava a Cristo, que este é o Filho de Deus” (Atos 9:20). Eu anseio por esse tipo de espírito entre os cristãos de hoje. Anseio por mais zelo ao pregar sobre a porta estreita a todos os que por ela ainda não passaram e por mais desejo de persuadi-los a passar por ela e serem salvos. Bem-aventurada é aquela igreja cujos membros não apenas desejam alcançar o céus, mas também fazer com que outros o alcancem. 

A grande porta para a salvação ainda está aberta, mas é chegada a hora em que ela se fechará para sempre. Trabalhemos enquanto é dia, pois “a noite vem, quando ninguém pode trabalhar” (João 9:4). Digamos a nossos parentes e amigos que encontramos o caminho para a vida e ele é agradável, que provamos o pão da vida e o achamos bom. Foi calculado que se todo cristão no mundo trouxesse uma alma a Cristo cada ano, toda a humanidade se converteria em menos de vinte anos. Não comento tal cálculo. Se ele é real ou não, uma coisa é clara: que “muitas almas teriam provavelmente se convertido a Deus, se cristãos fossem mais zelosos em praticar o bem”. 

Isso, ao menos, podemos nos lembrar, que Deus não quer que “alguns se percam, senão que todos venham a arrepender-se” (2 Pedro 3:9). Aquele que se esforça em mostrar ao seu vizinho a porta estreita está fazendo um trabalho aprovado por Deus. Ele faz um trabalho que os anjos observam com interesse e no qual nem mesmo a construção de uma pirâmide se igualará em importância. O que a Escritura diz? “Saiba que aquele que fizer converter do erro do seu caminho um pecador, salvará da morte uma alma, e cobrirá uma multidão de pecados” (Tiago 5:20). 

Despertemo-nos para um senso mais profundo de nossa liberdade nessa questão. Olhemos para a vida daqueles com quem convivemos e considere o estado de cada um perante Deus. Não há ainda muitos fora da porta, sem perdão, sem santificação e sem condições de morrer? Procuremos oportunidades de falar a eles. Falemos sobre a porta estreita e roguemos para que porfiem. 

Quem pode saber o que “uma palavra falada no tempo certo” é capaz de fazer? Quem pode saber o que ela é capaz de causar quando falada em fé e oração? Ela pode ser o ponto crucial na história de uma pessoa. Talvez seja o início do pensamento, da oração e da vida eterna. Que tenhamos mais amor e ousadia entre os cristãos! Pense na bênção que é poder pronunciar palavras de conversão! Não sei quais são seus sentimentos quanto a isso. O desejo do meu coração e minha oração é para que você possa lembrar diariamente das duras palavras de Cristo, “porque eu vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão”. Mantenham essas palavras em mente. Amém. 

ORE PARA QUE O ESPIRITIO SANTO USE ESSE SERMÃO PARA EDIFICAÇÃO DE MUITOS E SALVAÇÃO DE PECADORES. FONTE Traduzido de http://www.biblebb.com/files/ryle/JC-HowtobeSaved.htm © Copyright 2006 by Tony Capoccia Todo direito de tradução protegido por lei internacional de domínio público Original em inglês: How to be Saved Tradução: Sara de Cerqueira Revisão: Armando Marcos Pinto Capa: Victor Silva Projeto Ryle 

sábado, 17 de setembro de 2016

Seu rosto era como de um Anjo

O Batismo: um sepultamento


nº 1627, Entregue na manhã do dia do Senhor, 30 de outubro de 1881, por Charles Haddon Spurgeon, No Tabernáculo Metropolitano, Newington – Londres

 “Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte? De sorte que fomos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida..” (Romanos 6:3-4)

Que não se entre em controvérsia neste texto acerca do batismo, por mais que sobre ele alguns tenham levantado questões sobre o batismo infantil e adulto, imersão ou aspersão. Se qualquer pessoa puder interpretar de maneira consistente e conclusiva este texto sem considerar que a imersão é o genuíno batismo cristão, eu realmente gostaria de ver como o faz. Eu mesmo sou bem incapaz de realizar tal feito, e não imagino como fazê-lo. Eu me contento em aceitar o ponto de vista que o batismo significa um sepultamento dos crentes nas águas em nome do Senhor, e assim eu irei interpretar o texto.

Se alguém tem outra perspectiva, deveria ao menos se interessar em saber qual o significado que damos ao rito do batismo, e espero que eles não discordem do sentido espiritual apenas por diferirem no sinal externo.  Afinal, o emblema visível não é o assunto proeminente no texto.  Que Deus o Espírito Santo nos ajude a chegar ao ensino real. 

Eu não entendo que Paulo esteja dizendo que pessoas impróprias como os incrédulos, hipócritas, e enganadores que são batizados o sejam na morte de nosso Senhor. Ele diz “todos nós que”, colocando-se com o resto dos filhos de Deus. Ele pretende dizer que estes são os que tem direito ao batismo, e que a ele vem com seus corações num estado correto. Sobre tais pessoas, Paulo diz, “Ou não sabeis que todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na sua morte?” Ele nem mesmo pretende dizer que todos aqueles que foram batizados por direito tiveram completo entendimento do seu significado espiritual; pois, se o tivessem, não haveria necessidade da pergunta: “Ou não sabeis?” Parece que havia alguns batizados que não sabiam realmente o significado de seu próprio batismo. Eles tinham fé, e uma quantidade de conhecimento suficiente para torná-los dignos recebedores do batismo, porém não haviam sido corretamente instruídos na doutrina do batismo; talvez só estivesse enxergando no batismo o aspecto da lavagem, mas ainda não discerniram a característica do enterro.

Eu irei além, ao questionar se algum de nós conhece de maneira plena o significado das ordenanças que Cristo instituiu. Até agora somos como crianças brincando na praia em relação às coisas espirituais, enquanto o oceano está diante de nós. O melhor que podemos fazer é entrar no mar só até a altura dos joelhos, como fazem nossos filhos. Poucos de nós estamos aprendendo a nadar; e quando aprendemos, só nadamos até onde ainda podemos pisar os pés em segurança. Quem de nós jamais perdeu de vista a praia e nadou no Atlântico do amor divino, onde a verdade profunda está realmente no fundo, e o infinito é o que se vê em redor?

Oh, que Deus nos ensine diariamente daquilo que já sabemos em parte, e que a verdade que vimos de forma embaçada venha a nós de uma forma mais clara, até vermos tudo como na presença da total luz do sol. Isso só pode ocorrer se nosso caráter se tornar mais claro e puro; pois vemos de acordo com o que somos; e tal qual é o nosso olho assim também é como vemos. O puro de olhos só pode ver um Deus Santo e Puro. Seremos como Jesus quando o virmos como Ele é (I João 3:2), e certamente não o veremos como Ele é até sermos como Ele. Nas coisas celestiais nós O vemos tanto quanto nós O temos em nós mesmos. Aquele que comeu a carne e o sangue de Cristo espiritualmente é o homem que pode vê-lO na santa ceia, e aquele que foi batizado em Cristo vê Cristo no batismo. Porque a todo o que tem se lhe dará, e terá em abundância (Mateus 25:29).

O batismo anuncia a morte, sepultamento e a ressurreição de Cristo, e também nossa comunhão com Ele. Seu ensino tem dois pontos. Primeiro, pensem na união representativa com Cristo, de tal forma que, quando nosso Senhor foi morto e enterrado, foi para nosso próprio benefício, e desta forma fomos enterrados com Ele. Isso nos ensina do batismo na medida em que declara abertamente uma crença. Declaramos através do batismo que cremos na morte e Jesus, e desejamos comungar de todo Seu mérito.

Mas há outro assunto tão importante quanto este: trata-se da realização da nossa união com Cristo, que é demonstrada por meio do batismo, não tanto como uma doutrina da nossa confissão, mas como uma experiência nossa. Há um tipo de morte, de sepultamento, de ressurreição, e de viver em Cristo que deve se apresentar em todos nós que realmente somos membros do corpo de Cristo.

 I Primeiramente, então, eu gostaria que você pensasse em NOSSA UNIÃO REPRESENTATIVA COM CRISTO tal qual é estabelecida no batismo como uma verdade a ser crida. Nosso Senhor Jesus é o substituto do Seu povo, e quando Ele morreu foi para o bem desse povo e em seu lugar. A grande doutrina da nossa justificação depende disso, que Cristo tomou nossos pecados, ficou em nosso lugar, e como nosso procurador sofreu, e sangrou, e morreu, para apresentar em nosso lugar um sacrifício pelo pecado. Nós devemos nos lembrar dEle, não como uma pessoa privada, mas como nosso representante. Nós somos enterrados com Ele no batismo até a morte para mostrar que O aceitamos como sendo para nós morto e enterrado.

O Batismo como um enterro com Cristo significa, primeiro, aceitar a morte e sepultamento de Cristo como sendo para nós. Vamos fazer isso agora mesmo com todo o nosso coração. Que outra esperança temos? Quando nosso Divino Senhor desceu das alturas da glória e tomou sobre si a nossa humanidade, Ele se tornou um comigo e com você; e, tendo sido achado em forma humana (Filipenses 2:7), ao Pai agradou colocar o pecado sobre Ele, mesmo os seus pecados e os meus (Isaías 53). Você não aceita essa verdade, e concorda que o Senhor Jesus deve ser o sofredor da nossa culpa, e permanecer em pé em seu lugar à vista de Deus? “Amém! Amém!” digam todos vocês.

Ele subiu ao madeiro carregado com toda essa culpa, e lá Ele sofreu em nosso lugar e legalmente foi penalizado como nós deveríamos sofrer. Agradou ao Pai, ao invés de moer a nós, moê-lO. Ele O pôs para sofrer, fazendo sua alma uma oferta pelo pecado. Não aceitamos gratos a Jesus como nosso substituto? Oh amados, tendo sido batizados nas águas ou não, eu coloco essa questão diante de vocês, ―Você aceita o Senhor Jesus como seu representante substituto?‖ pois se não aceitam, vocês devem sofrer a própria culpa e carregar seu próprio sofrimento, e estar de pé no seu próprio lugar diante do olhar da justiça irada de Deus. Muitos de nós dizemos no mais profundo do coração –

 “Minha alma se volta para ver
O sofrimentos que tu suportaste,
Quando segurado na maldita árvore,
 E espera que sua culpa esteja lá”

 Agora, sendo sepultados com Cristo no batismo, nós selamos que a morte de Cristo foi em nosso benefício, e que estávamos com Ele, e morremos nEle, e, como prova de nossa fé, nós consentimos na tumba de água, e nos deixamos ser sepultados de acordo com Seu mandamento. Esse é um fato de fé fundamental – Cristo morto e sepultado por nós; em outras palavras, substituição, procuração, sacrifício vicário. Sua morte é a base da nossa segurança: não somos batizados no Seu exemplo, ou em Sua vida, mas em Sua morte. Aqui nós confessamos que toda a nossa salvação depende da morte de Jesus, cuja morte nós aceitamos como tendo acontecido por nossa conta.

 Mas isso não é tudo; pois se eu devo ser sepultado, não deve ser tanto porque eu aceito a morte substitutiva de outro por mim e por isso eu mesmo estou morto. Batismo é um reconhecimento de nossa própria morte em Cristo. Mas porque um homem vivo deveria ser enterrado? Porque ele deveria ser enterrado porque outro morreu em seu benefício? Meu sepultamento com Cristo não significa somente que Ele morreu por mim, mas que eu morri nEle, de tal forma que minha morte com Ele precisa de um enterro com Ele. Jesus morreu por nós porque ele é um conosco (João 17:11, 21). O Senhor Jesus Cristo não tomou sobre si os pecados do Seu povo por uma decisão arbitrária de Deus; mas era totalmente natural e próprio que Ele deveria tomar os pecados do Seu povo, pois eles são Seu povo, e Ele é sua cabeça definitiva.

 Era necessário Cristo sofrer por esta razão – que Ele era o representante do Seu povo pela aliança. Ele é a Cabeça do corpo, a Igreja; e se os membros pecaram, entende-se que a Cabeça, ainda que não tenha pecado, deva sofrer as consequências das ações do corpo. Assim como há um relacionamento natural entre Adão e aqueles que estão em Adão, assim há também entre o segundo Adão e os que estão nEle (Romanos 5:12-21). Eu aceito o que o primeiro Adão fez em relação ao meu pecado. 

Alguns de vocês podem discordar disto, e com toda a dispensação da aliança, se quiserem; mas como agradou a Deus colocar as coisas dessa forma, e eu sinto os efeitos disso, eu não vejo uso algum para a minha discórdia com isso. Tal qual aceito o pecado do pai Adão, e sinto que eu pequei com ele, assim também com alegria intensa eu aceito a morte e sacrifício pela culpa de meu segundo Adão, e me regozijo que nEle eu morri e ressuscitei. Eu vivi, eu morri, eu guardei a lei, eu satisfiz a justiça através da aliança da Cabeça. Deixe-me ser enterrado no batismo que eu mostrarei a todos em volta que eu creio que eu era um com meu Senhor na morte e enterro pelo pecado.

Olhem para isso, Oh, filhos de Deus, e não temam. Essas são grandes verdades, seguras e confortantes. Vocês estão entre as nuvens do Atlântico agora, mas não tenham medo. Percebam o efeito santificador dessa verdade. Suponha que um homem seja condenado à morte por causa de um grande crime; suponha, aliás, que ele morreu por aquele crime, e agora, por alguma obra maravilhosa de Deus, após ter sido morto ele foi vivificado de novo. Ele está novamente entre os homens, como ressurreto dentre os mortos, e qual é o estado de sua consciência quanto à sua ofensa? Ele irá cometer aquele crime de novo? Um crime pelo qual ele morreu? Eu digo enfaticamente: Deus proíbe. Ele certamente dirá: ― eu provei da amargura desse pecado, e eu fui miraculosamente levantado da morte que me sobreveio, e revivi; agora eu odiarei aquilo que me matou, e o abominarei com toda a minha alma.‖

 Aquele que recebeu o pagamento do pecado deve aprender como evitá-lo no futuro. Mas, você responde que ―nós nunca morremos assim. Nunca fomos obrigados a pagar a dívida do nosso pecado.‖ Correto. Mas aquilo que Cristo fez por você vem a ser a mesma coisa, e o Senhor olha para isso como a mesma coisa. Você é então um com Jesus, de tal forma que você deve considerar a morte dEle a sua morte, Seus sofrimentos como o castigo que lhe traz a paz (Isaías 53: 5). Você morreu na morte de Jesus, e agora por uma graça estranha e misteriosa você é resgatado do poço de corrupção (Salmo 40:1-2) para uma vida nova. Como você poderia voltar novamente ao pecado? Você viu o que Deus pensa do pecado: você percebe que Ele o abomina totalmente; pois quando foi posto sobre Seu Filho Amado, Ele não O poupou, mas O pôs em sofrimentos e O levou à morte. Pode você, depois disso, voltar-se àquela coisa maldita que Deus odeia?

Certamente, o efeito dos grandes sofrimentos do Salvador sobre seu espírito deve ser santificação. Como viveremos para o pecado, nós que para ele morremos (Romanos 6:1-14)? Como podemos nós, que já passamos debaixo da maldição (Gálatas 3:13-14), e suportamos sua pesada punição, tolerar seu poder? Deveríamos voltar a esse mal assassino, vil, virulento, e abominável? Não pode ser. A graça o proíbe. Deus não o queira.

Essa doutrina não é a conclusão de todo o assunto. O texto nos descreve como enterrados, mas com a perspectiva de ressurreição. ―Fomos, pois, sepultados com Ele na morte pelo batismo;‖ - com qual objetivo? - ―para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, assim também andemos nós em novidade de vida.‖ Ser enterrado com Cristo! Para quê? Para que você permaneça morto para sempre? Não, mas agora chegando onde Cristo está, você vá aonde Cristo for. Segure-se nEle, então: Ele vai, então primeiro ao sepulcro, mas a seguir para fora do sepulcro; pois quando a terceira manhã chegou Ele levantou. Se você é de fato um com Cristo, você deve ser um com Ele e passar por tudo; Você será um com Ele na morte, e um com Ele no enterro, e então você virá a ser um com Ele em Sua ressurreição.

Sou agora um homem morto? Não, bendito seja o Seu nome, pois está escrito que ―porque eu vivo, vós também vivereis‖ (João 14:19). Fato é que eu estou morto em um sentido, “considerai-vos mortos”. Mas não estou em outro pois “a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus” (Colossenses 3:3). E como um homem estaria absolutamente morto se ele tem uma vida oculta? Não; já que eu sou um com Cristo eu sou o que Cristo é: como Ele é um Cristo vivente, eu sou espírito vivente. Que coisa gloriosa é ter voltado dos mortos, porque Cristo nos deu vida. Nossa velha vida legal foi tirada de nós pela sentença da lei, e a lei nos vê como mortos (Romanos 7:1-6); mas agora recebemos uma nova vida, uma vida fora da morte, vida-ressurreição em Cristo Jesus. A vida do cristão é a vida de Cristo. Não é nossa a vida da primeira criação, mas da nova criação a partir dos mortos. Agora, pois, andamos nós em novidade de vida (Romanos 6:4), frutificando para a santificação (Romanos 6:22), e justiça, e alegria pelo Espírito de Deus. A vida na carne é para nós um obstáculo; nossa vida está no Seu Espírito. No melhor e mais elevado sentido, nossa vida é espiritual e celestial. Isso também é doutrina que deve ser guardada muito firmemente.

Eu quero que vocês vejam a força disso; pois eu estou buscando resultados práticos nesta manhã. Se Deus deu a você e a mim uma vida inteiramente nova em Cristo, como pode essa vida ser desperdiçada da mesma forma que a vida velha? Há o espiritual que quer viver como carnal? Como podem vocês que eram os servos do pecado, que foram libertos pelo sangue precioso, voltar à velha escravidão (Gálatas 5:1)? Quando vocês estavam na vida do primeiro Adão, vocês viviam em pecado, e o amavam; mas agora vocês foram mortos e enterrados, e feitos andar em novidade de vida: como pode ser que vocês estejam voltando aos rudimentos do mundo de onde o Senhor vos tirou? Se vocês vivem em pecado, vocês serão falsos na sua profissão de fé; pois vocês professarão estarem vivos para Deus (Romanos 6:11)?Se vocês andam na concupiscência, vocês vão pisar as doutrinas benditas da Palavra de Deus, pois elas levam à santidade e pureza. Você faria o cristianismo ser apenas uma palavra e um provérbio se, depois de tudo, vocês que saíram da morte espiritual exibissem uma conduta em nada melhor que a vida do homem comum, e um pouco superior à vida que você mesmo levava.

Visto que muitos de vocês que foram batizados disseram ao mundo ―estamos mortos para o mundo, e fomos trazidos para uma nova vida‖. Nossos desejos carnais estão dessa forma vistos como mortos, pois agora vivemos numa ordem de vida totalmente nova. O Espírito Santo nos deu uma nova natureza, e por mais que estejamos no mundo, não somos dele, mas somos feitos novo homem, ―criados em Cristo Jesus‖ (Efésios 2:10). Essa é a doutrina que pregamos a todo homem, que Cristo morreu e ressuscitou, e que Seu povo morreu e ressuscitou nEle. Dessa doutrina cresce a morte para o pecado e vida para Deus, e desejamos por cada ação e cada momento de nossas vidas ensiná-la a todos que nos vêem.

Não é esta uma preciosa doutrina? Oh, se vocês de fato são um com Cristo, deveria o mundo achar vocês se poluindo? Deveriam os membros de uma Cabeça generosa, graciosa, invejar e serem gananciosos? Deveriam os membros de uma Cabeça gloriosa, pura e perfeita, ser depredados com as concupiscências da carne e com as vaidades de uma vida em vão? Se os crentes são de fato identificados com Cristo de forma tal que eles são Seu tudo, não deveriam eles ser santos eles mesmos? Se nós vivemos em virtude pela nossa união com Seu corpo, como podemos viver como vivem os gentios? Como pode ser que tantos crentes professos exibem uma vida meramente mundana, vivendo para negócios e prazer, mas não para Deus, em Deus, ou com Deus? Eles dão uma pitada de religião numa vida mundana, e esperam cristianizá-la. Mas não conseguirão. Eu sou chamado a viver como Cristo viveria em minhas circunstâncias; escondido em meu quarto ou no púlpito público, eu sou chamado a ser o que Cristo seria no mesmo caso. Eu sou chamado a provar aos homens que aquela união com Cristo não é ficção, nem sentimento fanático: mas que somos movidos pelos mesmos princípios e agimos pelos mesmos motivos.
Batismo é então de fato um credo, e vocês podem lê-lo nestas palavras: ―unidos com Ele na semelhança da Sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da Sua ressurreição.‖

 II Mas, em segundo lugar, UMA UNIÃO REAL COM CRISTO também acontece no batismo, isso é mais uma questão de experiência que de doutrina.
Primeiro, há morte, então, uma questão de experiência atual do crente verdadeiro. ―Ou, porventura, ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte?‖ Deve ser contrário a todas as leis enterrar aqueles que ainda estão vivos. Enquanto não morrerem, o homem não pode ter o direito de ser enterrado. Muito bem, então, o cristão está morto, - morto, primeiro, para o domínio do pecado. Toda vez que o pecado lhe chamava, antes, ele respondia, ―aqui estou eu, pois você me chamou.‖ O pecado mandava em seus membros, e se o pecado dizia, ―faça isso,‖ ele o faria, como o soldado obediente ao seu centurião; pois o pecado mandava em todas as partes da sua natureza, e exercia sobre ele uma tirania suprema.

A graça mudou tudo isso. Quando nos convertemos nos tornamos mortos para o domínio do pecado. Se o pecado nos chama agora, nos recusamos a ir, pois estamos mortos. Se o pecado nos dá um comando nós não o obedecemos, pois estamos mortos para a sua autoridade. O pecado vem a nós hoje – oh, que ele não o faça – e acha em nós a velha corrupção que está crucificada, mas ainda não morta; mas não tem domínio sobre nossa verdadeira vida. Bendito seja Deus, o pecado não pode reinar sobre nós, por mais que possa nos assediar e nos trazer mal. ―Porque o pecado não terá domínio sobre vós; pois não estais debaixo da lei, e sim da graça.‖ Nós pecamos, mas sem permissão. Com que tristeza nós olhamos para as nossas transgressões! Quão sinceramente nós nos empenhamos em evitá- las! O pecado tenta manter seu poder usurpado sobre nós; mas não o reconhecemos como soberano. O mal entra em nós como um intruso ou estranho, e trabalha em triste confusão, mas não habita em nós sobre um trono; é alguém de fora, e rejeitado, e não mais honrado e um prazer. Estamos mortos para o reino do poder do pecado.

O crente, se espiritualmente sepultado com Cristo, está morto para o desejo de tal poder. ―O quê!‖ diz você, ―não têm os homens piedosos desejos de pecado?‖ De fato, eles têm. A velha natureza que há neles deseja o pecado; mas o homem verdadeiro, o ego real, deseja ser purgado de qualquer espécie ou traço de mal. A lei que opera em seus membros corre para o pecado, mas a vida no coração constrange à santidade (Romanos 7:14-23). Eu posso falar honestamente, por mim mesmo, que meu desejo mais profundo de minha alma é viver uma vida perfeita. Se eu pudesse ter meu melhor desejo realizado, eu nunca pecaria de novo; e, apesar disso, eu consinto com o pecado de tal forma que me torno responsável quando transgrido, meu eu mais interior abunda de iniquidade. 
O pecado é meu fardo, não meu prazer; minha miséria, não meu deleite; pensando nisso eu clamo, ―desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?‖ (Romanos 7:24). No centro do nosso coração nosso espírito se inclina firmemente para o que é bom, e verdadeiro, e celestial, de tal forma que o homem real tem prazer na lei de Deus, e busca de todo coração o que é bom. A verdadeira tendência atual do desejo e vontade de nossa alma não é para o pecado, e o apóstolo não nos ensinou mera fantasia quando disse, ―Porque aquele que está morto está livre do pecado‖ (Romanos 6:7).

Além disso, em segundo lugar estamos como que mortos à busca intensa e aos objetivos de uma vida ímpia e pecaminosa. Irmãos, há entre vocês alguém que professa ser servo de Deus vivendo para si mesmo? Então vocês não são servos de Deus; pois aquele que realmente nasceu de novo vive para Deus: o objetivo de sua vida é a glória de Deus e o bem aos seus semelhantes. Esse é o prêmio colocado à frente do homem movido por Deus, e para isso ele corre.

“Eu não corro para isso‖, diz um. Bem, então você não chegará ao destino desejado. Se você corre atrás dos prazeres do mundo e suas riquezas, você talvez alcance o prêmio de que está atrás, mas você não pode conquistar o ―prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus‖ (Filipenses 3:14). Eu espero que muitos de nós possamos dizer honestamente que estamos agora mortos para qualquer objetivo na vida, exceto a glória de Deus em Cristo Jesus. Estamos no mundo, e temos que viver como outros homens vivem, levando para frente nosso negócio regular; mas tudo isso está subordinado, e não nos agarramos nisso; nossos alvos estão além de algo mutável. O vôo de nossa alma, como o da águia, está acima destas nuvens: como aquele pássaro do sol recebe luz nas rochas, que mesmo descendo às planícies, ainda assim seu prazer é planar buscando a luz, indo acima das nuvens negras de tempestade, e olhando para todas as coisas terrenas como inferiores. 

Semelhantemente nossa vida que nos foi dada graciosamente segue em frente e acima; não somos do mundo, e as questões do mundo não são aquelas em que nós gastamos a maioria das nossas forças.
Novamente, estamos mortos nesse sentido, que estamos mortos para a orientação do pecado. A concupiscência da carne guia um homem para todos os lados. Ele determina seu curso pela pergunta, ―o que é mais prazeroso? O que me dará mais gratificação imediata?‖ O caminho dos ímpios é traçado pela mão do desejo egoísta: mas vocês que são verdadeiros cristãos têm outro guia, vocês são liderados pelo Espírito em um caminho direito. Você pergunta, ―o que é bom e o que é aceitável aos olhos do Altíssimo?‖ Sua oração diária é ―Senhor, mostra-me o que queres que eu faça‖. Vocês estão vivos para o ensino do Espírito, que os conduzirá a toda a verdade (João 16:13; I João 2:27); mas vocês estão surdos, sim, mortos para os dogmas da sabedoria carnal, às oposições da filosofia, aos erros da orgulhosa sabedoria dos homens. Guias cegos que caem (Mateus 15:14) com suas vítimas na vala são evitados por vocês, que escolheram o caminho do Senhor. Que abençoado estado de coração é este! Eu creio, meus irmãos, que já o percebemos de todo! Conhecemos a voz do pastor, e não seguiremos o estranho (João 10:4-5). Um é o vosso professor, e submetemos nosso entendimento à sua instrução infalível.

 Nosso texto deve ter tido um significado fortíssimo entre os romanos do tempo de Paulo, pois eles estavam mergulhados em todas as formas de vícios odiosos. Pegue um romano normal daquele período, e você o verá como um homem acostumado a gastar grande parte de seu tempo no anfiteatro, embrutecido pelas visões brutais de shows sangrentos, nos quais gladiadores se matavam para divertir uma multidão de férias. Ensinados em tal escola, o romano era cruel o quanto se pode ser, e além disso feroz na satisfação de suas paixões. Um homem depravado não o era considerado totalmente degradado; não somente nobres e imperadores eram monstros do vício, mas os professores públicos eram impuros. Quando aqueles que eram considerados como morais eram corruptos, você pode imaginar como eram os imorais. ―Divirta-se; siga atrás dos prazeres da carne‖, essa era a regra da época.

O cristianismo introduziu um novo elemento. Veja um romano convertido pela graça de Deus! Que mudança há nele! Seu vizinho lhe diz, ―você não estava no anfiteatro esta manhã. Como pôde perder a visão dos cem alemães que arrancaram as entranhas uns dos outros?‖ ―Não‖, ele diz, ―eu não estava lá; eu não suportaria estar lá. Estou completamente morto pra isso. Se você me forçasse a estar lá, eu teria de fechar meus olhos, pois não poderia olhar para assassinato ser cometido por esporte!‖. O cristão não se acomodava em locais de licenciosidade; ele estava realmente morto para tamanha imundície. A moda e os costumes da época eram tais que os cristãos não conseguiriam consentir com eles, e assim eles se tornaram mortos para a sociedade. Não é que os cristãos não iam atrás do pecado público, mas eles falavam dele com horror, e suas vidas o repreendiam. Coisas que as multidões consideravam com alegria, e falavam exaltando-as, não davam prazer ao seguidor de Jesus, pois ele estava morto para tais males. Essa é a nossa confissão solene quando decidimos nos batizar. Falamos, por atos que são mais audíveis que palavras, que estamos mortos para aquelas coisas em que os pecadores se deleitam, e queremos ser assim considerados.

O pensamento seguinte em batismo é enterro. Primeiro vem a morte, e então se segue o enterro. Agora, o que é enterro, irmãos? Enterro é, antes de tudo, o selo da morte; é o certificado de perda. ―Está tal homem morto?‖ diz você. Outro responde, ―porque, meu caro? Ele foi enterrado há um ano‖. Há exemplos de pessoas enterradas vivas, e eu temo que isso aconteça com triste frequência no batismo, mas não é natural, e de forma alguma a regra. Eu temo que muitos tenham sido enterrados vivos no batismo, e tenham posteriormente se levantado e saído da sepultura como estavam. Mas se o enterro é verdadeiro, é uma prova da morte. Se eu consigo dizer com verdade, ―Eu fui enterrado com Cristo trinta anos atrás‖, eu certamente estou morto.

 Certamente pensou assim o mundo, pois não pouco depois do meu enterro com Jesus eu comecei a pregar o Seu nome, e pelo tempo que o mundo me teve há muito como perdido, e disse, ―ele fede‖ eles começaram a dizer toda sorte de mal contra o pregador; mas quanto mais eu cheirava mal em suas narinas mais eu gostava de fazê-lo, pois tanto mais certo eu estava morto para o mundo. É bom para o cristão ser ofensivo aos homens rebeldes. Vejo como nosso Mestre fedia na estima dos ímpios quando clamavam ―crucifica-o! Crucifica-o!‖ por mais que nenhuma corrupção poderia chegar perto de seu corpo santo, ainda assim seu caráter perfeito não era saboreado por aquela geração perversa. Deve haver, portanto, em nós a morte para o mundo, e alguns dos efeitos da morte, ou nosso batismo é vão. Tanto quanto o sepultamento é a prova da morte, então nosso enterro com Cristo é o selo de nossa mortificação para o mundo.

Mas o enterro é, a seguir, a manifestação da morte. Enquanto o homem está vivo, os que passam não sabem que ele está morto; mas quando acontece o funeral, e ele é levado pelas ruas, todos sabem que ele está morto. É isso que o batismo deve ser. A morte do crente para o pecado é inicialmente um segredo, mas por uma confissão aberta ele leva todos os homens a saber que ele está morto com Cristo. Batismo é o rito funeral pela qual a morte para o pecado é abertamente estabelecida diante de todos os homens.

O sepultamento é também a separação da morte. O homem morto não está mais em sua casa, mas é colocado à parte como um que parou de ser contado entre os vivos. Um corpo não é uma companhia bem-vinda. Mesmo o objeto mais amado depois de um tempo não pode ser tolerado quando a morte fez seu trabalho sobre ele. Mesmo Abraão, que ficou por tanto tempo unido a sua amada Sara, é ouvido dizendo, ―sepulte o morto de diante da minha face‖ (Gênesis 23:1-4). Tal é o crente quando sua morte para o mundo é totalmente conhecida: ele é má companhia na opinião dos mundanos, e eles o vêm como o estraga-prazeres. O verdadeiro santo é colocado em separado na mesma classe que Cristo, de acordo com Sua palavra, ―Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós‖ (João 15:20). O santo é colocado fora do arraial (Hebreus 13:13) na mesma cova que seu Senhor; pois assim como Ele foi, assim somos nós também neste mundo. Ele está sepultado pelo mundo naquele único cemitério de fé, se assim o devo chamar, onde todos os que estão em Cristo estão juntamente mortos para o mundo, com o epitáfio para todos eles, ―Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus‖ (Colossensses 3:3).

E a cova é o lugar – eu não sei de onde tirar uma palavra disso – de acomodação da morte; pois quando um homem é morto e enterrado você jamais espera vê-lo voltando para casa novamente: tanto quanto este mundo está informado, morte e enterro são irreversíveis. Eles me dizem que espíritos andam pela terra, e todos nós vimos no jornal ―A verdade sobre fantasmas‖, mas eu tenho minhas dúvidas neste assunto. Nas questões espirituais, entretanto, eu temo que alguns não estejam muito sepultados com Cristo, mas andam entre as tumbas. Me entristece muito que seja assim. O homem em Cristo não pode andar como fantasma, pois ele está vivo em outro lugar; ele recebeu um novo ser e, portanto, ele não pode aparecer entre os falsos mortos a seu redor. Veja o que nosso capítulo fala sobre o Senhor: ―sabendo que, havendo Cristo ressuscitado dos mortos, já não morre; a morte não mais terá domínio sobre ele. Pois, quanto a ter morrido, de uma vez morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus.‖ (Romanos 6:9-10). Se de fato fomos vivificados das obras mortas nós jamais devemos voltar-nos a elas. Eu posso até pecar, mas o pecado não pode ter domínio sobre mim; eu posso ser um transgressor e ir longe do meu Deus, mas jamais eu poderia voltar à velha morte novamente. Quando a graça do meu Senhor me tomou, e me enterrou, ele forjou em minha alma a convicção que dali em diante e para sempre eu era para o mundo um homem morto.
Eu estou verdadeiramente grato em não ter comprometido isso, mas ter ido direto para fora. 

Eu desembainhei a espada, e lancei fora a bainha (Efésios 6:17; recomendo a leitura de ―A espada do Espírito‖). Digam ao mundo que é melhor eles não tentarem nos buscar de volta, pois estamos tão estragados para ele como se estivéssemos mortos. Tudo que poderiam ter de nós seriam nossas carcaças. Digam ao mundo para não nos tentar mais, pois nossos corações estão mudados. O pecado pode encantar o homem velho, homem dependurado na cruz, e ele deve até virar o seu olho luxuriante naquela direção, mas ele não pode seguir seu relance, pois ele não pode descer da cruz: O Senhor teve o cuidado de malhar bastante, e Ele pregou suas mãos e pés firmemente, de tal forma que a carne crucificada permanecerá no lugar de sofrimento e morte. Sendo isso também verdade, a genuína vida que está em nós não pode morrer, pois nasceu de Deus; nem pode habitar em tumbas, pois seu chamado é à pureza e alegria e liberdade; e a esse chamado se rende.

Nós chegamos até a morte e o sepultamento; mas o batismo, de acordo com o texto, representa também a ressurreição: ―como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida‖ (Romanos 6:4). Agora, note que o homem que está morto em Cristo, e sepultado com Cristo, é também levantado de entre os mortos em Cristo, e esse é um trabalho especial sobre ele. Nenhum morto está ressuscitado, mas o nosso Senhor mesmo é ―as primícias dos que dormem‖ (I Coríntios 15:20). Ele é o primogênito dos mortos (Colossensses 1:18). Ressurreição foi uma obra especial no corpo de Cristo pela qual Ele foi levantado, e aquela obra, que começou na cabeça, vai continuar até todos os membros serem co-participantes, pois:

 “Apesar de nossos pecados exigirem Nossa carne se tornar pó; Ainda assim como Senhor nosso Salvador se levantou, E assim farão todos os que o seguem”

Pois para nossa alma e espírito, a ressurreição começou em nós. Não chegou a nossos corpos ainda, mas será dada a eles no dia determinado. No presente um trabalho especial foi forjado sobre nós pelo qual fomos levantados de entre os mortos. Irmãos, se vocês foram mortos e sepultados, e ficaram deitados por uma noite, digamos, no Cemitério Onde se Acorda, e se uma voz divina lhe chamou diretamente para fora da cova quando as estrelas silenciosas brilhavam no céu aberto – se, digo eu, vocês se levantaram definitivamente do monte verde de relva, que ser solitário deveria ser no vasto cemitério na noite escura! Como você poderia sentar na vala e esperar pela manhã! Essa é realmente a condição que diz respeito ao presente mundo mal. Você foi uma vez igual a todos os pecadores ao seu redor, morto em pecado (Efésios 2:1), e dormindo a cova encomendada pelo mal. O Senhor pelo Seu poder chamou você para fora de sua tumba, e agora você está vivo no meio dos mortos. Não pode haver amizade aí para você: pois que comunhão pode haver entre os vivos e os mortos? Os homens lá no cemitério que acabaram de ser chamados não achariam ninguém no meio dos mortos com quem pudessem conversar, e não poderão achar companhia neste mundo. Ali jaz uma caveira, mas ela não pode ver pelos buracos dos olhos; nem tampouco há discurso vindo de sua boca cruel. Eu vejo uma massa de ossos depositados no canto: o que vive olha para eles, mas eles não podem ouvir ou falar. Imagine-se lá. Tudo que você poderia dizer aos ossos seria perguntar, ―poderão viver estes ossos secos?‖ (Ezequiel 37:3). Você seria um estrangeiro nessa casa de corrupção, e você desejaria sair o quanto antes de lá. Essa é sua condição no mundo: Deus te levantou de entre os mortos, e da companhia com a qual você tinha regularmente suas conversações.

 Agora, eu clamo a vocês, não volte e cave na terra, para abrir as covas e achar um amigo lá. Quem tiraria a porta de um caixão e clamar, ―Venha, você deve beber comigo! Você deve ir ao teatro comigo!‖ Não, nós abominamos a idéia de associarmo-nos com a morte, e eu tremo ao ver um cristão professo tentar ter comunhão com homens mundanos. ―Pelo que saí do meio deles, e apartai-vos, diz o Senhor; e não toqueis nada imundo‖ (II Coríntios 6:17). Vocês sabem o que aconteceria a você caso depois de ter sido levantado, e fosse forçado a sentar perto de um corpo morto recentemente tirado da cova. Você clamaria, ―Eu não posso suportar isso; não posso aguentar isso‖; você preferiria estar do lado oposto ao vento em relação ao corpo horrendo. Assim também com o homem que está realmente vivo para Deus: atos de injustiça, opressão, ou impureza ele não pode suportar; pois a vida se opõe à corrupção.

Note que, assim como fomos levantados por um trabalho especial de entre os mortos, esse levantar é pelo poder de Deus. Cristo foi trazido novamente ―dos mortos pela glória do Pai.‖ O que isso significa? Porque não disse, ―pelo poder do Pai‖? Ah, amados, glória é uma palavra maior; pois todos os atributos de Deus são exibidos em toda a sua pompa solene na ressurreição de Cristo de entre os mortos. Lá havia a fidelidade do Senhor; não havia Ele declarado que o ressuscitaria dos mortos (Isaías 55:3), e que não permitiria que o Seu Santo visse corrupção (Salmo 16:10)? Não foi o amor do Pai visto nisso? Eu estou certo de que houve um deleite no coração de Deus ao trazer de volta a vida ao corpo de Seu Filho amado. E assim, quando eu e você somos tirados de nossa morte em pecados, não é meramente o poder de Deus, não é meramente a sabedoria de Deus que é vista, é a ―glória do Pai‖.

Oh, pensar que cada filho de Deus que foi chamado foi chamado pela ―glória do Pai‖. Exigiu não somente o Espírito Santo, a obra de Jesus e a obra do Pai, mas a própria ―glória do Pai‖. Se a menor centelha de vida espiritual tem de ser criada pela ―glória do Pai‖, qual será a glória daquela vida quando chegar à perfeição plena, e quando formos como Cristo, e vê-lo como Ele é (I João 3:2)! Oh amados, tenham em alta conta a nova vida que Deus lhes deu. Pensem nela em lhes tornando mais ricos se vocês tivessem um mar de pérolas, mais que se vocês tivessem descendido do mais elevado dos príncipes. Há em você aquilo que requer todos os atributos de Deus para vir a existir. Ele poderia fazer um mundo somente com poder, mas você deve ser levantado de entre os mortos pela ―glória do Pai‖.

 Note a seguir que essa vida é algo inteiramente novo. Nós somos chamados a andar em ―novidade de vida‖. A vida de um cristão é algo inteiramente diferente da vida de outros homens, totalmente diferente da sua própria vida antes de sua conversão, e quando as pessoas tentam falsificá-la, eles não conseguem.

Uma pessoa lhe escreve uma carta e quer que você acredite que ele é um crente, mas dentro de uma meia-dúzia de sentenças aparece uma linha que trai o impostor. O hipócrita copiou suas expressões de maneira ordenada, mas não totalmente. Há uma guilda entre nós, e o mundo olha-nos de fora por um pouco, e aqui e ali eles tomam alguns de nossos símbolos; mas há um símbolo privado, que eles nunca conseguirão imitar, e assim em certo ponto eles se quebram. Um homem sem Deus pode orar tanto quanto um cristão, ler tanto a Bíblia quanto um cristão, e mesmo ir além de nós no exterior; mas há um segredo que ele não sabe e não consegue falsificar. A vida divina é uma novidade tão grande que o irregenerado não tem uma cópia com que trabalhar. Em todo cristão ela é tão nova como se ele fosse o primeiro cristão. Ainda que em todos haja a imagem e a inscrição de Cristo, ainda há uma borda branqueada ou algo da prata verdadeira que esses falsificadores não podem conseguir. É algo novo, uma história, algo fresco de Deus.

E, por último, essa vida é algo ativo. Eu já desejei que Paulo não tivesse sido tão rápido enquanto o lia. Seu estilo viaja em botas de sete léguas. Ele não escreve como um homem qualquer. Eu realmente gostaria de dizer a ele que se ele tivesse escrito este texto na ordem apropriada, deveria ser, ―Como Cristo foi levantado de entre os mortos pela glória do Pai, assim também devemos ser levantados‖. Mas veja; Paulo pulou tanto assunto enquanto falamos: ele chegou a ―andemos‖. O andar inclui a vida, que o simboliza, e Paulo pensa tão rápido quando o Espírito de Deus está sobre ele que ele passou direto da causa para o efeito. Tão logo recebemos a nova vida nos tornamos ativos: não sentamos e dizemos, ―Eu recebi uma nova vida: quão grato eu devo estar. Eu vou na quietude usufruir disso‖. Oh, queridos, não. Nós temos de fazer algo diretamente enquanto estamos vivos, e começamos a andar, e assim o Senhor mantém-nos durante toda a nossa vida em Sua obra; ele não nos permite ficar sentados contentes com o mero fato de vivermos, nem permite que gastemos nosso tempo examinando se vivemos ou não; mas nos dá uma batalha para lutar, e a seguir outra; Ele nos dá Sua casa para construir, Sua fazenda para arar, Seus filhos para cuidar, e Suas ovelhas para alimentar.
Às vezes temos tempos de ferozes lutas com nosso próprio espírito, e tememos que o pecado e Satanás irão enfim prevalecer, até que nossa vida será dificilmente reconhecida, mas é sempre reconhecida pelos atos. A vida que é dada àqueles que estavam mortos, com Cristo, é uma vida enérgica, forte, que está sempre ocupada para Cristo, e, se pudesse, moveria céus e terra para sujeitar todas as coisas àquele que é sua Cabeça.

Essa vida Paulo nos diz que não tem fim. Uma vez recebida, nunca sairá de você. ―havendo Cristo ressuscitado dos mortos já não morre; a morte não mais terá domínio sobre ele‖. É também uma vida que não está mais debaixo do pecado ou da lei. Cristo veio sob a lei enquanto estava aqui (Gálatas 4:4), e teve os nossos pecados sobre si (Isaías 53:6), e assim morreu; mas depois que Ele ressuscitou não havia mais pecado sobre Ele. Em Sua ressurreição tanto o pecador quanto o Fiador estão livres. O que Cristo teve de fazer depois de ressuscitar? Carregar mais pecados (Hebreus 7:27)? Não, mas simplesmente viver para Deus. É aí onde eu e você estamos. Não temos pecados mais para carregar; está tudo sobre Cristo. O que temos de fazer? Toda vez que tivermos uma dor de cabeça, ou nos sentirmos enfermos, clamaremos, ―essa é a punição pelo meu pecado?‖ Nada disso. Nossa punição foi plenamente satisfeita, pois recebemos a sentença capital, e estamos mortos: nossa nova vida deve ser para Deus.

 “Tudo o que resta para mim É somente amor e canção, E esperar a vinda dos anjos Para me levar aos céus.”

Eu tenho agora que servi-lO e ter prazer nEle, e usar o poder que Ele me deu para chamar outros dos mortos, ―desperta, ó tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará‖ (Efésios 5:14). Eu não vou voltar à cova da morte espiritual nem ao meu caixão de pecado; mas pela graça divina eu vou continuar a crer em Jesus, e ir de força em força, não debaixo da lei, não temendo o inferno, nem esperando merecer o céu, mas como uma nova criatura (II Coríntios 5:17), amando por ter sido amado primeiro (I João 4:19), vivendo para Cristo pois Cristo vive em mim (Gálatas 2:19-20), ardentemente esperando a glória que será revelada (Romanos 8:18) em virtude da minha união com Cristo.

Pobre pecador, você não sabe nada sobre essa morte e sepultamento, e nunca saberá até que você tenha o poder de ser chamado filho de Deus (I João 1:12), que Ele dá a todos os que crêem no Seu nome. Creia no Seu nome, e será todo seu. Amém e amém.


FONTE: http://www.spurgeongems.org/vols25-27/chs1627.pdf Traduzido do inglês, do original ―Baptism – a Burial‖, Adaptação de The C. H. Spurgeon Collection, Ages Software, 1.800.297.4307 Todo direito de tradução protegido por lei internacional de domínio público Sermão nº 1627—Volume 27 do Metropolitan Tabernacle Pulpit