segunda-feira, 26 de maio de 2014

A Agonia no Getsêmani


No. 1199
Sermão pregado no Domingo, 18 de Outubro de 1874.
Por Charles Haddon Spurgeon.
No Tabernáculo Metropolitano, Newington, Londres

“E, posto em agonia, orava mais intensamente. E o seu suor tornou-se em grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão.” (Lucas 22:44)

Quando nosso Senhor terminou de comer a Páscoa e celebrar a ceia com seus discípulos, foi com eles ao Monte das Oliveiras, e entrou no jardim do Getsêmani. O que o induziu a selecionar esse lugar para que fosse a cena de sua terrível agonia? Porque haveria de ser arrastado ai por seus inimigos de preferência a qualquer outro lugar? Por acaso é difícil que entendamos que assim como num jardim a auto-complacência de Adão nos arruinou, também em outro jardim as agonias do segundo Adão deveria nos restaurar? O Getsemani ministra as medicinas para curar os males que foram a consequência do fruto proibido do Éden. Nenhuma flor que tenha florescido nas ribeiras do rio repartido em quatro braços foi alguma vez tão preciso para nossa raça como foram essas ervas amargas que com dificuldade cresciam as margens do enegrecido e sombrio ribeiro de Cedrom o foram.

Por acaso nosso Senhor também não pode se lembrar de Davi, quando naquela memorável ocasião, saiu da cidade escapando de seu filho rebelde, segundo está escrito: ―também o rei passou o ribeiro de Cedrom, e passou todo o povo na direção do caminho do deserto.” (2 Samuel 15:23), e ele e seu povo subiram descalços e com a cabeça descoberta, chorando em alta voz enquanto subiam? Eis aqui, Um mais grande que Davi abandonando o templo e se acha desolado, e deixa a cidade que havia rejeitado suas advertências, e com um coração cheio de tristeza atravessa o pestilento ribeiro, para buscar na solidão um alívio para suas angústias. Mais ainda, nosso Senhor queria que nós víssemos que nosso pecado havia mudado tudo ao redor Dele em aflição, converteu suas riquezas em pobreza, sua paz em duros trabalhos, sua glória em vergonha, e assim também o lugar de seu retiro pleno de paz, onde em santa devoção tinha estado tão próximo do céu em comunhão com Deus, nosso pecado transformou no foco de sua aflição, o centro de sua dor. Ali onde seu deleite tinha sido maior, ali estava chamado a sofrer sua máxima aflição.

Também pode ser que nosso Senhor tenha escolhido o jardim porque, necessitado de qualquer recordo que o ajudasse no conflito, sentia o refrigério que lhe viria ao lembrar-se das horas passadas transcorridas ali com tanta quietude. Ali tinha orado, e obtido força e consolo. Essas enroladas e retorcidas oliveiras o conheciam muito bem; não havia no jardim uma só folha sobre a que Ele não houvera se ajoelhado. Ele havia consagrado esse lugar para comunhão com Deus. Não é nenhuma surpresa, então, que tenha preferido essa terra privilegiada. Assim como um enfermo escolheria estar em sua própria cama, assim Jesus escolheu suportar sua agonia em seu próprio oratório, onde as lembranças dos momentos de comunhão com Seu Pai estariam de maneira vivida diante Dele.

Porem, provavelmente, a principal razão para ir ao Getsêmani foi que era um lugar muito conhecido e frequentado por Ele, e João nos diz: ―e também Judas, o que o entregava, conhecia aquele lugar.‖ Nosso Senhor não desejava se esconder, não precisava ser perseguido como um ladrão, ou ser buscado por espias. Ele foi valorosamente ao lugar onde seus inimigos conheciam que Ele tinha o costume de orar, pois Ele queria ser tomado para sofrer e morrer. Eles não o arrastaram ao pretório de Pilatos contra sua vontade, mas sim que foi com eles voluntariamente. Quando chegou a hora de que fosse traído, ali Ele estava, num lugar onde o traidor poderia o encontrar facilmente, e quando Judas o traiu com um beijo, sua face estava pronta para receber a saudação traidora. O bendito Salvador deleitava-se no cumprimento da vontade do Senhor, ainda que isso implicasse a obediência até a morte.

Chegamos assim até a porta do jardim do Getsêmani, portanto, entremos; porem, primeiro, tiremos os sapatos, como Moises quando viu a sarça ardendo com fogo que não se consumia. Certamente podemos dizer com Jacó: ―Que terrível é esse lugar!‖ Temo diante da tarefa que tenho em minha frente, pois, como meu débil discurso poderia descrever essas agonias, para as quais os fortes clamores e as lágrimas seriam escassamente uma adequada expressão? Quero, juntamente com vocês, repassar os sofrimentos de nosso Redentor, porem, oh, que o Espírito de Deus nos impeça qualquer pensamento fora de lugar ou que nossa língua expresse uma só palavra que seja depreciativa para Ele, seja em Sua humanidade imaculada ou em sua gloriosa Deidade.
Não é fácil quando se está falando de Alguém que é por sua vez Deus e homem, manter a linha exata da expressão correta; é tão fácil descrever o lado divino como se estivéssemos entrincheirados no humano, ou retratar o lado humano às custa do divino. Por favor, perdoem de antemão qualquer erro. Um homem precisa ser inspirado, ou limitar-se nada mais às palavras inspiradas, para poder falar adequadamente em todo momento sobre o ―grandioso mistério da piedade,” Deus manifestado em carne. Especialmente quando esse indivíduo tem que refletir sobre Deus manifesto tão claramente na carne sofredora, que as características mais frágeis da humanidade se convertem nas mais notórias. Oh Senhor, abra Tu meus lábios para que minha língua possa falar as palavras corretas.

I. Meditando na cena da agonia no Getsêmani, somos obrigados a dar-nos conta que nosso Salvador suportou ai uma tristeza desconhecida em qualquer outra etapa de Sua vida, portanto, vamos começar nosso discurso fazendo a seguinte pergunta: QUAL ERA A CAUSA DESSA TRISTEZA ESPECIAL DO GETSÊMANI? Nosso Senhor era ―varão de dores e experimentado no sofrimento‖ ao longo de toda Sua vida, no entanto, ainda que soe paradoxo, penso que dificilmente existiu sobre a face da terra um homem mais feliz que Jesus de Nazaré, pois as dores que Ele teve que suportar foram compensadas pela paz da pureza, a calma da comunhão com Deus, e a alegria da benevolência. Todo homem bom sabe que a benevolência é doce e seu nível de doçura aumenta em proporção a dor suportada voluntariamente quando se cumprem seus amáveis desígnios. Fazer o bem sempre produz alegria.
Mais ainda, Jesus tinha uma perfeita paz com Deus todo o tempo; sabemos que isso era assim porque Ele considerava essa paz como uma herança especial que Ele podia deixar a seus discípulos, e antes de morrer disse-lhes: ―A paz os deixo, a minha paz os dou.‖ Ele era manso e humilde de coração, e, portanto sua alma possuía o descanso; Ele era um dos mansos que herdam a terra; um dos pacificadores que são e que devem ser abençoados. Estou certo que não me equivoco quando afirmou que nosso Senhor estava longe de ser um homem infeliz.
Porem, no Getsêmani, tudo parece ter mudado. Sua paz o abandonou, Sua calma se converteu em tempestade. Depois da ceia, nosso Senhor tinha cantado um hino, porem no Getsêmani não havia cantos. Descendo pela encosta que levava de Jerusalém a torrente do Cedrom, Ele falava com muita vivacidade, dizendo: ―eu sou a videira, vós os ramos,‖ e essa maravilhosa oração com que orou com Seus discípulos depois desse sermão, está repleta de majestade: ―Pai, aqueles que me tens dado, quero que onde eu esteja, também eles estejam comigo.‖ É uma oração muito diferente dessa oração dentro dos muros do Getsêmani, onde clama: ― Pai, se possível, passe de mim esse cálice.‖ Observem que dificilmente ao largo de toda sua vida o observam com uma expressão de angustia, e no entanto, aqui Ele fala, não só mediante suspiros e suor de sangue, mas também por meio das seguintes palavras: ―Minha alma está muito triste, até a morte.‖ No jardim, o homem que sofria não podia ocultar sua angustia, e dá a impressão que não queria fazê-lo.

Jesus regressou onde estavam seus discípulos em três ocasiões, permitiu-lhes observar Sua angustia e apelou pela simpatia deles; suas exclamações eram lastimosas, e sem dúvida deve ter sido terrível escutar Seus sussurros e gemidos. Essa angustia manifestou-se primordialmente no suor de sangue, que é um fenômeno inusitado, ainda que suponho que devemos crer nesses escritores que registram casos muito similares. O velho médico Galeno nos fala de um caso em que, pelo horror extremo, um indivíduo suou um suor colorido, quase que avermelhado, que tinha aparência de sangue. Outros casos também são relatados por autoridades médicas.

No entanto, nós não vemos em nenhuma outra ocasião nada parecido na vida de nosso Senhor; foi somente no ultimo lance horrendo rodeado de oliveiras que nosso Campeão resistiu até o sangue, agonizando contra o pecado. O que doía a Ti, ó Senhor, que padecias tão dolorosamente nesse momento?
Fica-nos muito claro que sua profunda angústia e inquietude não eram causadas por nenhuma dor física. Sem dúvida nosso Salvador estava familiarizado com a enfermidade e a dor, pois Ele tomou nossas enfermidades, porem nunca antes se queixou de algum sofrimento físico. Nem tampouco ao momento de entrar no jardim do Getsêmani havia sido afligido por algum dolo. Sabemos por que está escrito: ―Jesus chorou.‖ Era porque seu amigo Lázaro estava morto; porem, no jardim não havia nenhum funeral, nem enfermo, nem causa de angústia relacionada a esses temas. Nem tampouco se deveu a que houvesse se lembrado de ofensas do passado que estivessem a flor de Sua mente. Muito antes disso sabemos que: ―Afrontas me quebrantaram o coração‖ (Salmos 69:20), e tinha conhecido em toda sua extensão os abusos da injúria e do desprezo. O haviam chamado de ―homem comilão e beberrão,‖ o tinham acusado de lançar fora aos demônios pelo príncipe dos demônios; já não podiam dizer mais e, no entanto, Cristo havia enfrentado tudo valorosamente. Não podia ser possível que agora Ele estivera muito triste até a morte por tal causa. Deve ter havido algo mais agudo que a dor, mais cortante que a censura, mais terrível que o luto, que nesse momento contendia com o Salvador, e o levava a ―entristecer-se e angustiar-se em grande medida.‖

Por acaso supõem que era o temor do escárnio que se avizinhava ou o terror da crucificação? Era medo ao pensar na morte? Não é certo que essa suposição seria impossível? Todos os homens temem à morte, e como homem, Jesus não poderia menos do que estremecer-se frente a ela.
Quando fomos feitos originalmente fomos criados para a imortalidade, portanto morrer é estranho e incompatível para nós e o instinto de conservação fazer que nos esquivemos diante da morte; porem, certamente no caso de nosso Senhor essa causa natural não podia gerar esses resultados tão especialmente dolorosos. Se nós que somos uns pobres covardes não suamos grandes gotas de sangue, por que então causava tal terror Nele? Não é honroso para nosso Senhor que o imaginemos menos valente que seus próprios discípulos, e, no entanto temos visto triunfantes a alguns dos santos mais frágeis diante do prospecto da partida.

Leiam as histórias dos mártires, e com frequência verão alegres diante dos mais cruéis sofrimentos que se avizinhavam. O gozo do Senhor lhes deu tal força que nenhum pensamento covarde os alarmou em um só instante. Eles foram para fogueira ou para onde seriam decapitados, com salmos de vitória em seus lábios. Não devemos considerar nosso Senhor como inferior a Seus mais valentes servos. Não pode ser que Ele trema ali onde eles foram valorosos. Oh não, o espírito mais nobre nesse esquadrão de mártires é o Líder mesmo, que tanto no sofrimento como no heroísmo, os superou todos; ninguém podia desafiar de tal maneira as dores da morte como o Senhor Jesus, o qual, pela alegria posta diante Dele sofreu a cruz, menosprezando o opróbrio.

Não posso conceber que as angustias do Getsêmani foram ocasionadas por algum ataque extraordinário de Satanás. É possível que Satanás estivesse ali, e que sua presença houvera obscurecido a sombra, porem ele não era a causa mais proeminente dessa hora de escuridão. Pelo menos isso está muito claro, que nosso Senhor, ao início de Seu ministério se envolveu em um duelo muito severo com o príncipe das trevas. No entanto, não lemos com relação à tentação no deserto uma só silaba que nos diga que Sua alma estava triste em extremo, nem mesmo encontramos que ―começou a entristecer-se e a angustiar-se,‖ nem existe tampouco uma só indicação solitária de algo que fora parecido ao suor sangrento. Quando o Senhor dos anjos condescendeu em enfrentar-se com o príncipe do poder do ar, não lhe teve nenhum medo como para clamar em grande voz e derramar lágrimas e cair prostrado em terra rogando três vezes ao Grandioso Pai. Falando comparativamente, colocar Seu pé sobre a serpente antiga foi uma tarefa fácil para Cristo, e lhe custou uma ferida no calcanhar, mas essa agonia do Getsêmani feriu Sua alma até a morte.

O que vocês crêem então que foi o que marcou de maneira tão especial o Getsêmani e às angústias que ali tiveram parte? Cremos que o Pai o colocou a sofrer ali por nós. Era nesse momento que nosso Senhor tinha que tomar certa copa da mão do Pai. A prova não vinha nem dos judeus, nem do traidor Judas, nem dos discípulos que cochilavam, nem do diabo, mas sim que era um cálice que tinha sido cheira por Um que Ele sabia que era Seu Pai, mas que, no entanto, lhe havia designado uma porção muito amarga, uma copa que não era para o corpo bebera, nem para derramar seu fel sobre sua carne, mas sim uma copa que de maneira especial atordoava Sua alma e afligia o íntimo de Seu coração. Ele retrocedia em frente dela, e, portanto podem estar seguros que foi um gole mais terrível que a dor física, pois frente a ela não arredava; era uma porção mais terrível que o vitupério. Disso não havia tratado jamais de escapar; mais horrível que a tentação satânica. Ele a havia vencido: era algo inconcebivelmente terrível, repleto de horror de forma surpreendente, que vinha da mão do Pai. Isso elimina toda dúvida quanto ao que era, pois lemos: ―Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado” (Isaías 53:10) ―Mas o Senhor carregou nele o pecado de nós todos.‖ Ao que não conhecia pecado, por nós o fez pecado. Então, isso é o que ocasionou que o Salvador experimentava uma extraordinária depressão. Ele estava próximo a ―que pela graça de Deus provasse a morte por todos,‖ e levar a maldição que os pecadores mereciam. Porque esteve no lugar dos pecadores, sofreu no lugar deles. Aqui está o segredo dessas agonias que não é possível declarar ordenadamente diante de vocês, tão certo é que:
“Somente para Deus, e unicamente para Ele Suas angustias são plenamente conhecidas.”

No entanto, quero exortá-los para que considerem por um momento essas angustias, para que possam amar a Quem as sofreu. Agora se dava conta, talvez pela primeira vez, o que significava carregar com o pecado. Como Deus, era perfeitamente santo e incapaz de pecar, e como homem estava sem mancha original, puro e sem nenhuma contaminação; no entanto, teve que carregar com o pecado, ser levado como bode expiatório carregando com a iniquidade de Israel sobre sua cabeça, ser tomado e feito uma oferenda pelo pecado, e como uma coisa desprezível (pois nada era mais desprezível que a oferenda do pecado), ser levado fora do acampamento e ser totalmente consumido pelo fogo da ira divina.
O surpreende que sua infinita pureza resistira diante disso: Teria sido o que Ele era se houvera deixado de ser um assunto extremamente solene para Ele estar ante Deus na posição do pecador? E como Lutero o expressou, ser visto por Deus como se Ele fosse todos os pecados do mundo, e como se Ele houvesse cometido todo o pecado que foi cometido em todos os tempos por Seu povo, pois todo esse pecado foi colocado sobre Ele, e sobre Ele devia tombar toda a violência que esse pecado exigia; Ele de tinha que ser  o centro de toda a vergonha e carregar sobre Ele com todo o que deveria recair sobre os culpados filhos dos homens.

Estar nessa posição quando já era uma realidade deve ter sido muito terrível para a alma santa do Redentor. Também a mente do Salvador estava fixamente concentrada na aborrecível natureza do pecado. O pecado sempre foi algo aborrecível para Ele, porem agora Seus pensamentos estavam absortos nele, viu sua natureza que a palavra de um mortal não poderia descrever, seu caráter atroz, e seu horrível propósito.
Provavelmente nesse momento teve uma visão como homem, mais clara do que em qualquer outro momento, do amplo alcance e do mal do pecado que a tudo contamina, e um sentido da negrura de suas trevas, e da desesperada condição de culpa como um ataque direto sobre o trono, sim, e sobre o próprio ser de Deus. Ele viu em sua própria pessoa até onde poderia chegar o pecador, como podiam vender a seu Senhor como Judas, buscando destruí-lo como os judeus fizeram.

O cruel e pouco generoso tratamento que Ele mesmo tinha recebido fazia patente o ódio do homem para Deus, e, ao vê-lo, o horror apoderou-se Dele, e Sua alma estava triste ao pensar que tinha que carregar com todo esse mal e tinha que ser contado entre tais transgressores, ser ferido por suas transgressões, e golpeado por suas iniquidades. Nem as feridas nem os golpes o afligiam tanto como o pecado mesmo, e isso sobrecarregava completamente Sua alma.
Sem dúvida nesse momento a pena pelo pecado começou a ser percebida por Jesus no jardim: primeiro o pecado, que o havia posto na posição de um substituto que sofre, e depois a pena que devia suportar, ao estar nessa posição de substituto. Lamento ao máximo esse tipo de teologia que é tão comum nesses dias, que busca depreciar e diminuir nosso entendimento dos sofrimentos de nosso Senhor Jesus Cristo. Irmãos, não foi um sofrimento insignificante esse que recompensou a justiça de Deus pelos pecados dos homens. Jamais temo exagerar quando falo do que meu Senhor teve que suportar. Todo o inferno foi destilado nessa copa, da qual nosso Deus e Salvador Jesus Cristo foi obrigado a beber.
Não era sofrimento eterno, mas devido que Ele é divino, pode oferecer a Deus em um curto tempo o desagravo de sua justiça, que os pecadores no inferno não poderiam ter oferecido ainda que sofressem em suas pessoas por toda a eternidade. A dor que quebrantou o espírito do Salvador, o grande oceano sem fundo de angustia inexpressável que inundou a alma do Salvador quando morreu, é tão inconcebível, que não posso me aventurar muito longe, para não ser acusado de um vão intento de expressar o inexpressável. Porem, sim, posso dizer isso, a simples espuma proveniente desse mar tempestuoso, ao cair sobre Cristo, o batizou em um suor sangrento. Ainda não havia se aproximado as ondas impetuosas do castigo mesmo, mas simplesmente o ato de estar de pé na costa, ao ouvir as terríveis ondas rompendo seus pés, sua alma estava muito confusa e triste. Era a sombra da tempestade que se aproximava, era o prelúdio do terrível abandono que devia suportar, ao estar onde tinha que estar, e pagar à justiça de seu Pai a dívida que nós deveríamos pagar – isso o tinha derribado. Ser tratado como um pecador, ser castigado como um pecador, ainda que Nele não havia pecado, tudo isso é o que ocasionava Nele a agonia a que nosso texto se refere.

II. Tendo falado assim da causa de sua especial angustia, penso que poderemos fundamentar nosso ponto de vista sobre a matéria, enquanto os levamos a considerar QUAL ERA O CARÁTER DESSA ANGÚSTIA. Irei tratar de evitar o excessivo uso das palavras gregas usadas pelos evangelistas – estudei cada uma delas, para descobrir os matizes de seus significados, porem será suficiente se lhes dou os resultados de minha cuidadosa investigação. Qual era essa angustia? Como foi descrita? Essa grande pena assediou nosso Senhor mais ou menos quatro dias antes de sua paixão. Se lemos em João 12:27, achamos essa assombrosa expressão: ―Agora está minha alma perturbada‖ Nunca o escutamos dizer algo igual antes. Isso era uma antecipação da grande depressão do espírito que pronto o ia prostrar no Getsêmani. ―Agora a minha alma está perturbada; e que direi eu? Pai, salva-me desta hora; mas para isto vim a esta hora. (João 12:27)‖ Depois lemos em Mateus 26:37, que ―começou a entristecer-se e a angustiar-se muitíssimo.” A depressão havia chegado para Ele novamente. Não era dor, não eram palpitações do coração, nem uma dor de cabeça, era algo pior que todas essas coisas. A turbação de espírito é pior que a dor corporal; a dor poder trazer problemas e converter-se na causa incidental de angústia, porem, se a mente está perfeitamente tranquila, um homem pode suportar a dor sem maiores problemas, e quando a alma está radiante e levantada com um gozo interno, a dor do corpo quase é esquecida. A alma conquista ao corpo.

Por outro lado, a dor da alma é a causa de dor corpórea. A natureza inferior se harmoniza com a natureza superior. O principal sofrimento de nosso Senhor estava em Sua alma. Os sofrimentos de Sua alma eram a alma de Seus sofrimentos. ―Quem suportará ao ânimo angustiado?‖ a dor de espírito é a pior das dores, a tristeza de coração é o ápice das aflições. Que todos aqueles que conheceram alguma vez a depressão do espírito, o abatimento e a escuridão mental, confirmem a verdade do que eu digo!
Essa angústia de coração parece ter levado o espírito de nosso Senhor a uma profundíssima depressão. No capítulo 26 de Mateus, no versículo 37 está registrado que Ele ―começou a entristecer-se e a angustiar-se muito” e essa expressão está cheia de significado. Muito mais conteúdo, em verdade, do que poderíamos explicar com facilidade. A palavra em seu texto original é muito difícil de traduzir. Pode significar a abstração da mente, e a completa invasão da mente pela angústia, de tal forma que qualquer outro pensamento que poderia aliviar a pena fica totalmente excluído. Um pensamento lacerante consumia Sua alma inteira, e queimava tudo que houvera podido dar consolo. Por uns instantes Sua mente se recusou a considerar o resultado de Sua morte, o conseguinte gozo colocado diante Dele. Sua posição como O que carregou com o pecado, e o requerido abandono de Seu Pai, embargava todas as Suas meditações, impedindo que Sua alma se fixasse em alguma outra coisa.

Alguns viram nessa palavra uma medida de distração, e ainda que não adentrarei muito nessa direção, pareceria como que a mente de nosso Salvador tivesse experimentado perturbações e convulsões muito distantes de Sua usual calma e de seu espírito recolhido. Era lançado de um lado a outro como que sobre um poderoso mar embravecido, envolto na tormenta, arrastado por sua fúria. ―e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. (Isaías 53:4)‖ Como o salmista disse, inumeráveis males o cercavam de tal forma que seu coração decaia. Seu coração se derretia como cera em suas entranhas em um completo desmaio. Começou a ―angustiar-se muito.‖ Alguns consideram que a raiz da palavra significa: ―separado do povo,‖ como se o houvesse convertido em alguém diferente dos demais homens, assim como alguém cuja mente está atordoada por um golpe súbito, ou está oprimida por uma surpreendente calamidade, não se comporta mais como os homens comuns.

Os simples espectadores teriam pensado que nosso Senhor era um homem atordoado, sobrecarregado mais além dos limites humanos, e submergido em uma angústia sem paralelo entre os homens. O estudioso Thomas Goodwin1 disse: ―a palavra denota um defeito, uma deficiência, e um espírito abatido como sucede com as pessoas que sofrem de uma enfermidade e um desmaio.‖ A enfermidade de Epafrodito2, que o levou a
1 Thomas Goodwin (1600-1680), conhecido como "o Velho", foi um teólogo inglês puritano e pregador, e um importante líder dos religiosos Independentes (Congregacionais). Ele atuou como capelão de Olliver Cromwell. (Fonte: http://historiacongregacional.blogspot.com)
2 Epafrodito foi um companheiro de Paulo de Tarso durante suas viagens missionárias e é mencionado na Epístola aos Filipenses (Filipenses 2:25 e Filipenses 4:18). beira da tumba, é descrita utilizando-se da mesma palavra: assim que, vemos que a alma de Cristo estava enferma e desfalecida.

Por acaso seu suor não foi gerado pela prostração? O suor frio, pegajoso dos moribundos é produzido pela fraqueza corporal, mas o suor sangrento de Jesus era produzido pelo total desfalecimento e prostração de Sua alma. Sua alma estava em um terrível desmaio, e sofria da morte interna, cujo acompanhamento não era as lágrimas usuais dos olhos, mas sim um choro de sangue proveniente do homem inteiro. Muitos de vocês, no entanto, conhecem em certa medida o que significa estar angustiado em grande medida sem que eu tenha que multiplicar minha explicação, e se vocês não o sabem por experiência pessoal, todas minhas explicações resultam serem vãs. Quando o profundo desalento chegue, quando não possam se lembrar de nada que os possa sustentar, e seu espírito decaia profundamente, profundamente, profundamente, então poderão sentir dor juntamente com seu Senhor.
Outros os consideram néscios, os chamam de nervosos, e lhes pedem que se reanimem, porem, desconhecem completamente seu caso. Se o entendessem não zombariam deles com tais advertências, impossíveis para os que estão afundando-se sob o peso da aflição interna. Nosso Senhor estava ―muito angustiado‖, muito abatido, muito desalentado, sobrecarregado pela pena.
Marcos nos diz, continuando, no capítulo 14, versículo 33, que nosso Senhor ―começou a ter pavor, e a angustiar-se‖ A palavra grega não tem somente a conotação de que Ele estava assombrado e surpreendido, mas sim que Sua estupefação chegava ao limite do horror, como o que os homens experimentam quando os pelos se lhes arrepia e sua carne treme. Assim como quando Moisés recebeu a Lei estava temeroso e tremendo em extremo, e como disse Davi: “meu corpo se arrepiou com temor de ti, e temi os teus juízos.” (Salmo 119:120), assim nosso Senhor foi alcançado pelo horror diante do espetáculo do pecado que foi depositado sobre Ele e a vingança que era exigida por sua causa. O Salvador estava primeiro ―profundamente afligido‖, logo deprimido, e ―angustiado‖, e finalmente, agudamente estupefato e cheio de assombro; pois, mesmo Ele em sua condição de homem, escassamente pode saber o que era que se havia comprometido em carregar. O tinha considerado com calma e tranquilidade, e tinha sentido que independentemente do que fora, Ele o carregaria por nós; porem, quando chegou o momento de carregar realmente com o pecado, estava totalmente perplexo e surpreendido pela terrível posição de estar no lugar do pecador diante de Deus, de que Seu santo Pai o contemplara como o representante do pecador, e de ser abandonado por
esse Pai com quem Ele havia vivido em termos de amizade e deleite desde toda a eternidade. Isso fazia cambalear sua natureza santa, terna, cheia de amor, e Ele estava ―profundamente afligido‖ e ―angustiado‖.

É-nos ensinado que um oceano o encerrava, o envolvia e o abatia, pois o versículo 38 do capítulo 26 de Mateus contem a palavra perilupos que significa ―ficar completamente envolto no abatimento‖. Em todas as misérias comuns geralmente existe alguma via de escape, algum lugar onde se pode respirar esperança. Geralmente, podemos recordar de nossos amigos que estão em problemas, que seu caso poderia ser pior, porem, não poderíamos imaginar o que poderia ser pior nas aflições de nosso Senhor, pois Ele podia dizer com Davi: ―Os cordéis da morte me cercaram, e angústias do inferno se apoderaram de mim; encontrei aperto e tristeza.‖ (Salmo 116:3) Todas as ondas e as olas de Deus passaram sobre Ele. Sobre Ele, debaixo Dele, ao redor Dele, interna e externamente tudo era angustia, e não havia nenhuma fonte de alívio ou de consolo. Seus discípulos não podiam o ajudar. Todos, menos um, dormiam, e o que estava desperto, ia a caminho de o trair.

Seu espírito clamava na presença do Deus Todo Poderoso sob o peso aplacante e sob a carga intolerável de suas misérias. Não houve piores aflições do que as de Cristo, e Ele mesmo disse: ―Minha alma está muito triste‖, ou rodeada de tristezas, ―até a morte‖. Ele não morreu no jardim, porem sofreu o mesmo que se houvera morrido. Suportou intensamente a morte, ainda que não extensamente. Quer dizer, não se estendeu até converter seu corpo em um cadáver, mas foi tão intensa em dor como se verdadeiramente tivesse morto. Sua dor e sua angústia equivaliam aos de uma agonia mortal, e só fizeram uma pausa quando esteve à borda da morte.

Para coroar tudo, Lucas nos diz em nosso texto, que nosso Senhor estava em agonia. A expressão ―agonia‖ significa um conflito, uma contenda, uma luta. Com quem era essa agonia? Com quem lutava? Eu penso que era consigo mesmo; a contenda aqui assinalada não era com Seu Deus; não, ―não seja como eu quero, mas como tu‖ não descreve uma luta com Deus; não era uma contenda com Satanás, pois, como já o vimos, não teríamos ficado surpreendidos que se houvera sido esse o conflito, mas sim que era um terrível combate consigo mesmo, uma agonia dentre de Sua própria alma. Recordem que Ele teria podido escapar de toda a aflição se Sua vontade assim o tivesse desejado, e naturalmente sua natureza humana dizia: ―Não leves essa carga!‖ e a pureza de Seu coração dizia: ―Oh, não leves essa carga, não te ponhas no lugar do pecador;‖ e a delicada sensibilidade de Sua misteriosa natureza se retraia de qualquer tipo de conexão com o pecado: no entanto, o amor infinito dizia: ―leva-a, dobre-se sob essa carga‖; e assim, existia uma agonia entre os atributos de Sua natureza, uma batalha em uma escala terrível na arena de Sua alma.
A pureza que não pode suportar entrar em contato com pecado deve ter sido muito poderosa em Cristo, enquanto que o amor que não queria permitir que seu povo perecesse era também muito poderoso. Era um conflito em escala titânica, como se um Hércules tivesse encontrado outro Hércules; duas forças tremendas lutavam e combatiam e agonizavam, no sangrento coração de Jesus. Nada lhe causa a um homem maior tortura do que ser arrastado daqui para lá por emoções em conflito; assim como a guerra civil é mais cruel e a pior das guerras, assim uma guerra dentro da alma de um homem quando duas grandes paixões nele pretendem o domínio, e ambas são também nobres paixões, causam um problema e uma tensão que ninguém póde entender exceto quem experimenta essa guerra.

Não me surpreende que o suor de nosso Senhor fora como grandes gotas de sangue, quando tal pressão interna o triturava como um ramo de uva pisoteado num lagar. Espero não ter olhado presuntivamente na arca, ou ter visto dentro o lugar santíssimo coberto pelo véu; Deus não queira que a curiosidade ou o orgulho me levem a querer intrometer-me onde o Senhor colocou uma barreira. Os guiei tão perto como pude, e devo fechar a cortina de novo com as palavras que acabo de usar:
“Somente para Deus, e unicamente para Ele
Suas angustias são plenamente conhecidas.”

III. Nossa terceira pergunta será QUAL FOI O ALÍVIO DE NOSSO SENHOR EM TUDO ISSO? Ele buscou ajuda na companhia dos homens, e era muito natural que assim o fizesse. Deus criou em nossa natureza humana uma necessidade de simpatia. É perfeitamente normal que nós esperemos que nossos irmãos vigiem conosco em nossa hora de provação; porem, nosso Senhor deu-se conta que os homens não eram capazes de ajudá-lo; sem importar quanto seus espíritos queriam ajudar, sua carne era fraca. Então, o que fez? Recorreu à oração, e especialmente a Deus em seu caráter de Pai. Aprendi por experiência própria que não conheceremos a doçura da Paternidade de Deus até que não experimentemos uma amarguíssima angústia; posso entender que quando o Salvador disse: ―Aba, Pai,” foi a angústia quem o reduziu como a um menino castigado a apelar queixosamente ao amor de um Pai.
Na amargura de minha alma clamei: ―Sim, em verdade és meu Pai, pelas entranhas de tua paternidade, tem piedade de Teu filho;‖ e aqui Jesus suplica a Seu Pai como nós temos feito, e encontra consolo nessa súplica. A oração era o canal do consolo do Redentor; verdadeira, intensa, reverente, a oração que se repete, e depois de cada tempo de oração regressava a calma e voltava para seus discípulos com uma medida de paz restaurada. Quando viu que dormiam, suas aflições regressaram, e, portanto voltou a orar de novo, e cada fez foi consolado, de tal forma que quando orou pela terceira vez já estava preparado para se encontrar com Judas e com os soldados, e para ir com silenciosa paciência ao juízo e à morte.

Seu grande consolo era a oração e a submissão à vontade divina, pois quando colocou Sua própria vontade aos pés de Seu Pai a debilidade de Sua carne não se queixou mais, sim que em doce silêncio, como uma ovelha submetida aos tosquiadores, conteve a Sua alma em paciência e descanso. Queridos irmãos e irmãs, se algum de vocês experimenta seu próprio Getsêmani e suas pesadas aflições, imitem o seu Senhor recorrendo à oração, clamando a seu Pai e aprendendo a submeter-se a Sua vontade.
Irei concluir sacando duas ou três aplicações de todo nosso tema. Que o Espírito Santo nos instrua.
A primeira é essa: Conheçam, queridos irmãos, a humanidade real de nosso Senhor Jesus Cristo. Não pensem Nele unicamente como Deus, ainda que certamente é divino, porem sinta-o como relacionado com vocês, ossos de seus ossos e carne de sua carne. Que plenamente Ele pode compreendê-los! Ele foi carregado com todas as cargas de vocês, e afligidos com todas as aflições de vocês. São muito profundas as águas pelas que vocês estão atravessando? No entanto, não são profundas comparadas com as torrentes com as que Ele foi golpeado. Jamais penetra no espírito de vocês alguma dor que seja estranha para a Cabeça do pacto. Jesus pode identificar-se com todas as aflições de vocês, pois sofreu muito mais do que vocês sofreram, portanto, é capaz de socorrê-los em suas tentações. Devem apegar-se a Jesus como seu amigo íntimo, o irmão que os ajudará na adversidade, e terão obtido um consolo que lhes permitirá atravessar todas as profundezas.

Continuando, contemplem aqui o intolerável mal do pecado. Você é um pecador, porem Jesus nunca o foi, e, no entanto, estar em lugar do pecador foi tão terrível para Ele que estava muito triste, até a morte. O que será para você um dia o pecado se é achado culpado ao final! Oh, se pudéssemos descrever o horror do pecado não haveria nenhum de vocês que estaria satisfeito de permanecer no pecado nem por um momento; creio que essa manhã, se elevaria dessa casa de oração um lamento e gemidos tais que poderiam ser ouvidos nas próprias ruas, se os homens e as mulheres aqui presentes que estão vivendo em pecado pudessem entender realmente o que é o pecado, e qual é a ira de Deus que se acumula sobre eles, e quais serão os juízos de Deus que muito logo os rodearão e os destruirão, Oh alma, o pecado deve ser uma coisa terrível se ele aplacou dessa forma a nosso Senhor. Se a pura imputação do pecado produziu suor sanguinolento no santo e puro Salvador, o que produzirá o pecado mesmo: Evitem-lhe, não passem perto dele, afastem-se de qualquer coisa que pareça ele, caminham com muita humildade e cuidado com seu Deus para que o pecado não os cause dano, porque é uma praga mortal, uma peste infinita.

Vejam em continuação, porem, oh, que poucos minutos me restam para falar de tal lição, o amor sem par de Jesus, que por causa de vocês e por mim não somente sofreu no corpo, mas sim que consentiu em carregar com o horror de ser contado como um pecador, e colocar-se sob a ira de Deus por causa de nossos pecados: ainda que lhe custou sofrer até a morte, e uma terrível aflição, o Senhor se apresentou como nossa garantia antes que ver que nós perecêssemos. Por acaso não poderíamos suportar com alegria a perseguição por causa Dele? Não poderíamos trabalhar para Ele com total entrega? Somos tão pouco generosos que Sua causa possa ter necessidades enquanto nós contamos com os meios para ajudá-la? Somos tão baixos que sua obra pode chegar a um alto enquanto nós temos a força para continuá-la? Os exorto pelo Getsêmani, meus irmãos, se possuem uma parte e uma porção na paixão de seu Salvador, amem muito Àquele que os amou verdadeiramente sem medida, e gastem-se e sejam gastos por Ele.
Outra vez vendo a Jesus no jardim, aprendemos a excelência e a plenitude da expiação. Que negro sou, que sujo e desprezível aos olhos de Deus! Eu só mereço ser lançado ao mais profundo do inferno, e me assombra que Deus não me tenha lançado ali desde muito tempo; porem, entro no Getsêmani, e observo essas torcidas oliveiras, e vejo a meu Salvador. Sim, o vejo retorcendo-se no solo cheio de angústia, e escuto Seus gemidos do tipo que nunca foram emitidos por nenhum peito anteriormente. Observo a terra e a vejo vermelha com Seu sangue, enquanto Seu rosto está banhado de suor ensanguentado, e digo a mim mesmo: ―Meu Deus, Meu Salvador, por que te afliges?‖ E Ele me responde: ―Estou sofrendo por teu pecado,‖ e então sinto muito consolo, pois enquanto quisera ter evitado a meu Senhor tal angústia, agora que a angústia terminou, posso entender como Jeová pode perdoar-me, porque feriu a Seu Filho em meu lugar.
Agora tenho esperança de ser justificado, pois trago diante da justiça de Deus e diante de minha própria consciência a lembrança de meu Salvador que sangra, e digo: ―Podes Tu demandar o pago duas vezes, primeiro a mão de Teu Filho que agoniza, e depois de mim?‖ Pecador como sou, estou ante o trono ardente da severidade de Deus, e não tenho medo. Podes queimar a mim, oh fogo consumidor, quando não só tem queimado, mas sim que consumiu completamente a meu Substituto? Não, por fé, minha alma vê a justiça satisfeita, a lei honrada, o governo moral de Deus estabelecido, e, no entanto, minha alma que foi antes culpada agora é absolvida e recebe a liberdade. O fogo da justiça vingadora se extinguiu, e a Lei consumiu suas demandas mais rigorosas sobre a pessoa Dele que foi feito uma maldição por nós, para que possamos ser feitos a justiça de Deus Nele. Oh, a doçura do consolo que flui do sangue de expiação! Obtenham esse consolo, meus irmãos, e nunca o deixem, Aferrem-se ao coração de seu Senhor que sangra, e bebam do abundante consolo.

Por último, qual não será o terror do castigo que recairá sobre aqueles homens que rejeitam o sangue expiatório, e que terão que estar frente a Deus em suas próprias pessoas para sofrer por seus pecados. Lhes direi, senhores, que dói a meu coração ao dizer-lhes isso, o que sucederá com aqueles que rejeitam a meu Senhor. Jesus Cristo, meu Senhor e meu Deus, é um sinal e uma profecia para vocês do que lhes passará. Não é em um jardim, mas sim na cama de vocês onde sempre descansaram serão surpreendidos, e as dores da morte se apoderarão de vocês. Serão entristecidos com uma tremenda tristeza e remorso pela vida que desperdiçaram, e por terem rejeitado ao Salvador. Então, o pecado que mais amam, sua lascívia favorita, como outro Judas, os trairá com um beijo. Quando todavia sua alma dependure de seus lábios, será tomada e levada por um grupo de demônios, e levada ao tribunal de Deus, tal como Deus tal como Jesus foi levado a sala do juízo de Caifás. Haverá um juízo sumário, pessoal e de alguma maneira privado, como resultado de qual serão enviados a prisão onde, em trevas e rugir de dentes e pranto, passarão a noite antes da sessão do tribunal que terão o juízo pela manhã. Então virá o dia, e virá a manhã da ressurreição, e assim como nosso Senhor compareceu ante Pilatos, assim vocês comparecerão diante do mais alto tribunal, não o de Pilatos, mas sim do terrível trono de juízo do Filho de Deus, a Quem vocês desprezaram e rejeitaram. Logo aparecerão testemunhas declarando contra vocês, não testemunhas falsas, mas sim verdadeiras, e vocês ficarão sem fala, assim como Jesus não disse nenhuma palavra frente seus acusadores. Logo, suas consciências e desespero o sacudirão, até que se convertam em tal monumento de miséria, tal espetáculo de desprezo, até poderem ser descritos adequadamente por outro ―Ecce Homo‖, eis aqui o homem, e os homens o olharão e dirão: ―Eis ali o homem e ao sofrimento que lhe sobreveio, porque desprezou a seu Deus e encontrava prazer no pecado.‖

Depois, serão condenados. ―Apartai-vos de mim, malditos,‖ será a sentença que receberão, assim como ―Seja crucificado‖ foi a condenação de Jesus. E serão levados pelos oficiais de justiça ao lugar de sua condenação. Logo, igual ao Substituto dos pecadores, vocês exclamarão: ―Tenho sede,‖ porem ninguém lhes dará nem uma gota de água; não provarão nada senão o fel da amargura. Serão executados publicamente com todos os seus crimes escritos sobre sua cabeça para que todos possam os ler e entendam que vocês foram justamente condenados; e logo, zombarão de vocês, como zombaram de Jesus, especialmente se professaram alguma religião falsa; todos os que passem por ai dirão: ―a outros salvou, e a outros pregou, porem a si mesmo não se pode salvar.‖ O mesmo Deus zombará de vocês. Não, não pensem que estou sonhando, Ele não há dito: ―Também de minha parte eu me rirei na vossa perdição e zombarei, em vindo o vosso temor.‖ (Provérbios 1:2)?
Clamem a seus deuses nos que confiaram alguma vez! Obtenham seu consolo das concupiscências nas que uma vez se deleitaram, oh vocês que foram condenados para sempre! Para vergonha de vocês e para confusão de sua nudez, vocês que desprezaram ao Salvador serão feitos espetáculo da justiça de Deus para sempre. É correto que assim seja, a justiça corretamente o demanda assim. O pecado fez que o Salvador sofresse uma agonia, não te fará sofrer a você? Mais ainda, ademais de seu pecado, vocês rejeitaram ao Salvador, vocês disseram: ―Não colocarei minha confiança Nele‖.
Voluntariamente, presunçosamente, e em contra de sua própria consciência rejeitaram a vida eterna; e se morrem rejeitando a misericórdia, o que pode resultar de tudo isso? Pois que primeiro seu pecado e logo sua incredulidade os condenarão à miséria sem limites e sem fim. Deixem que Getsêmani lhes advirta, deixem que Seus gemidos, Suas lágrimas e Seu suor sangrento lhes sirvam de aviso. Arrependam-se do pecado e creiam em Jesus. Que Seu Espírito assim se lhes permita, no nome de Jesus. Amém.

ORE PARA QUE O ESPIRITO SANTO USE ESSE SERMÃO PARA EDIFICAÇÃO DE MUITOS E SALVAÇÃO DE PECADORES.
Traduzido de http://www.spurgeon.com.mx/sermon1199.html
Todo direito de tradução protegido por lei internacional de domínio público
Sermão nº 1199 THE AGONY IN GETHSEMANE - 
do volume 20 do The Metropolitan Tabernacle Pulpit,
Tradução e revisão: Armando Marcos Pinto
Projeto Spurgeon - Proclamando a CRISTO crucificado.
www.projetospurgeon.com.br 

domingo, 18 de maio de 2014

A Conversão de Saulo de Tarso




             Sermão pregado na manhã de Domingo                 
 27 de Junho de1858,
Por Charles Haddon Spurgeon
No Music Hall, Royal Surrey Garden, Londres.

“E, caindo nós todos por terra, ouvi uma voz que me
falava, e em língua hebraica dizia: Saulo, Saulo, por que
me persegues? Dura coisa te é recalcitrar contra os
aguilhões.” Atos 26:14.

Quão maravilhosa é a condescendia que levou o Salvador a fixar os olhos em um ser desprezível como Saulo! Entronizado nos altos céus, em meio às melodias eternas dos remidos, e dos sonetos seráficos dos querubins e de todas as hostes angélicas, é estranho que o Salvador se inclinasse de Sua dignidade para falhar com um perseguidor. Ocupadocomo está, tanto de dia como de noite, em argumentar a causa de Sua própria igreja diante do trono de Seu Pai, unicamente a benignidade o levou, por assim dizer, a suspender Sua intercessão para falar
pessoalmente com alguém que havia jurado ser Seu inimigo. E, que graça admirável moveu o coração do Salvador para buscar um homem como Saulo, que havia proferido ameaças contra Sua igreja!

Não havia ele homens e mulheres presos na prisão? Saulo não havia forçado os cristãos a blasfemarem o nome de Jesus em cada sinagoga? E agora o próprio Jesus intervém para que Saulo caia na razão! Ah, se tivesse sido uma faísca que vibrasse em sua pressa para alcançar o coração do homem, não nos surpreenderíamos. Oh se os lábios franzidos do Salvador tivessem pronunciado uma maldição, não nos assombraríamos. Por acaso Ele mesmo não havia amaldiçoado em vida o perseguidor? Não havia dito: ―Qualquer que fizer tropeçar uns
destes pequeninos que creem em mim, melhor seria que amarasse ao
pescoço uma pedra de moinho, e que fosse lançado nas profundezas do
mar?
Mas agora o homem que foi amaldiçoado com essa linguagem, seria abençoado pelo mesmo que havia perseguido; e ainda que suas mãos estavam manchadas com sangue, e agora levava a permissão em suas mãos para encerrar os outros na prisão, e ainda que havia cuidado das roupas daqueles que apedrejaram Estevão, apesar de tudo isso, o Senhor, o Rei do céu, dignou-se de falar pessoalmente dos mais altos céus para levá-lo a sentir a necessidade de um Salvador, e para fazê-lo participante da fé preciosa.

Eu afirmo que está é uma maravilhosa condescendência e uma graça incomparável. Mas, amados, quando recordamos o caráter do Salvador, não deveríamos ficar surpresos que Ele fez isso, pois fez coisas maiores. Acaso Ele não abandonou os tronos estrelados do céu, e desceu a terra para sofrer, sangrar e morrer? Quando penso no casebre de Belém, no cruel jardim do Getsemani, e no mais vergonhoso Calvário, não me surpreende que o Salvador faça qualquer ato de graça ou condescendência. Havendo feito isto, o que poderia ser maior? Se Ele
desceu do céu ao Hades, que maior condescendência poderia realizar?
Se Seu próprio trono permaneceu vazio, se Ele despojou-se de Sua própria coroa, se Sua Deidade devia ser revelada pela carne, e os esplendores de Sua Deidade foram vestidos com os trapos da humanidade, o que nos surpreende, pergunto, que Ele tenha consentido em falar com Saulo de Társo, para atrair seu coração a Ele? Amados, alguns de nós não estamos surpresos tão pouco, pois ainda que não recebemos maior graça que o próprio Apóstolo, tão pouco temos recebido menor que graça que ele. O Salvador não falou conosco do céu com uma voz audível, mas falou com uma voz que nossa consciência escutou. Não estávamos sedentos de sangue, pode até ser, contra os Seus filhos, mas havíamos cometido pecados atrozes e sombrios.

Contudo, Ele nos deteve. Não se contentou em cortejar-nos, nem com ameaçar-nos, nem se contentou em enviar Seus ministros para que nos dessem Sua palavra de advertência sobre nossos deveres, mas Ele mesmo quis vir até nós. E vocês e eu, amados, que temos experimentado esta graça, podemos dizer que foi um amor incomparável o que salvou Paulo, mas não um amor único; pois Ele também nos
salvou, e nos tem feito participantes da mesma graça.

Hoje tenho a intenção de dirigir-me especialmente aqueles que não têm temor do Senhor Jesus Cristo, mas que ao contrário, se opõem a Ele. Estou muito seguro que não há ninguém aqui que chegue ao ponto de desejar reviver a velha perseguição da igreja. Não creio que há algum inglês, independentemente de quanto possa odiar a religião, que deseje ver outra vez a fogueira de Smithfield, com sua pira consumindo os santos. Pode haver alguns que nos odeiam com igual intensidade, mas ainda assim, não daquela maneira; o sentido comum de nossa
época se opõe a forca, a espada e o calabouço. Os filhos de Deus, pelo menos neste país, estão livres de qualquer perseguição política desse tipo; mas é altamente provável que haja algumas pessoas aqui presentes, que fazem todo o possível, e se esforçam ao máximo para provocar a ira do Senhor, opondo-se a Sua causa. Talvez vocês possam se reconhecer se eu descrever. Raras vezes veem a casa de Deus; de fato sentem desprezo por todas as reuniões dos justos; tem um conceito que
todos os santos são uns hipócritas, que todos que professam a fé são falsos, e não se envergonham de falar isso. No entanto, tem uma esposa, e essa sua esposa sente-se impressionada pelas vozes do ministério; ela adora casa de Deus, e só Deus e seu coração sabem quanta dor e quanta agonia mental tem causado a ela. Quantas vezes têm zombado e feito piada com ela por causa de sua profissão de fé! Não podem negar que se tornou uma mulher melhor por sua fé; se veem obrigados a confessar que ainda que ela não possa acompanhá-los em todas as suas diversões e jogos, até onde é possível, é uma esposa amorosa e afetiva com eles. Se alguém pretendesse encontrar falhas, vocês defenderiam seu caráter com hombridade; mas odeiam sua religião e recentemente ameaçaram-na tranca-la em casa no dia de Domingo. Dizem que é impossível morarem juntos na mesma casa se ela visita a Casa de Deus. Eles também têm uma filha pequena; não se opuseram que a menina participasse da escola dominical, pois isso colocava ela fora de casa no dia de Domingo, para fumarem seu cachimbo; diziam que não queriam que seus filhos os molestassem, e portanto se alegravam de enviá-los para escola dominical; mas o coração dessa garotinha foi tocado, e não podem evitar comprovar que a religião de Cristo está em seu coração, e disso não gostam de modo algum. Amam a menina, mas dariam qualquer coisa para que essa menina não fosse o que é; fariam tudo para apagar qualquer faísca de religião nela.

Talvez posso descrevê-los com outro caso. Você é um patrão. Ocupa uma posição respeitável. Tem muitos homens sob seu cargo, e não pode suportar que algum deles faça uma profissão de religião. Outros patrões que você conhece têm dito a seus homens: ―Faça como quiser, contanto que seja um bom servo, não me interessam suas convicções religiosas. Mas, talvez, você seja o oposto; ainda que não mandasse embora alguém por causa de sua religião, de vez em quando faz de seu obreiro objeto de seu escárnio, e se descobre alguma pequena falha nele diz: ―Ah! Isso é culpa da tua religião. Eu suponho que você aprendeu isso na Igreja.E afliges a alma do pobre homem, enquanto ele se esforça o máximo possível para cumprir seus deveres para contigo.
Ou talvez você seja um jovem empregado de um armazém ou oficina, e um de seus colegas recentemente se entregou a religião, e se você o encontra orando de joelhos, como você se diverte com ele, não é certo? Você e outros amigos se juntam como uma matilha de cães atrás de uma pobre lebre, e sendo ele uma pessoa bem mais tímida, talvez não responda nada, o se fala, as lágrimas correm pelos seus olhos, porque feririam seu espírito.

Agora, este é exatamente o mesmo espírito que acendeu as brasas de antigamente. Que torturou o santo sobre a poste do tormento. Que picou seu corpo e o enviou errante, vestido com peles de ovelhas e com peles de cabras. Se não descrevi com precisão seu caráter ainda, poderia fazê-lo antes de haver concluído. Desejo dirigir-me em particular a aqueles que, de palavra ou de obra ou de qualquer outra maneira, perseguem os filhos de Deus; ou se não gostam de uma palavra tão dura como ―perseguir, então que se ria deles, que se lhes oponham, e que se esforcem para por fim a boa obra que está se
desenvolvendo em seus corações.

Em nome de Cristo, em primeiro lugar, vou lhes fazer a pergunta: “Saulo, Saulo, por que você me persegues?” Em segundo lugar, em nome de Cristo, vou repreendê-los: ―Dura coisa te é recalcitrar contra os aguilhões;” e logo, se Deus abençoar o que é dito para comover os corações, pode ser que o Senhor lhes de algumas palavras de consolo,
como fez com o apóstolo Paulo, quando lhe disse: ―Mas levanta-te e põete sobre teus pés, porque te apareci por isto, para te pôr por ministro e testemunha tanto das coisas que tens visto como daquelas pelas quais te aparecerei ainda.

I. Então, em primeiro lugar, vamos considerar a PERGUNTA QUE JESUS CRISTO FEZ A PAULO DESDE O CÉU, tem sido feita para cada um de vocês hoje. Primeiro, notem que pessoal foi à pergunta: ―Saulo, Saulo, por que tu me persegues?. Quando eu lhes prego, estou obrigado a dirigir-me a todos vocês como uma assembleia. Não é possível que eu, exceto em raras exceções, me dirija a alguém em particular, e que descreva seu caráter, ainda que debaixo da mão do Espírito, isso até pode acontecer às vezes; mas no geral, estou obrigado a descrever o caráter como um
todo, e tratar com ele em grupo. Mas não sucede assim com nosso Senhor. Ele não disse do céu: ―Saulo, por que a sinagoga me persegue?
Por que os judeus odeiam minha religião? Não; foi mais pessoal que isso: ―Saulo, Saulo, por que você me persegues? Se houvesse sido feita em termos gerais, desviaria o coração do apóstolo; seria como uma flecha que não atingiu seu alvo, tocando apenas a pele do homem cujo coração queria enterrar: mas quando ouviu pessoalmente: ―por que você está me perseguindo?não havia forma de escapar-se dela. Peço ao Senhor que faça pessoalmente essa pergunta a alguns de vocês.

Há muitas pessoas aqui presentes que tem experimentado uma ministração pessoal em suas almas. Por acaso não recorda, querido irmão em Cristo, quando foi a primeira vez que seu coração se compungiu, quão pessoal foi o pregador? Eu o recordo muito bem.
Parecia-me que eu era a única pessoa em toda a capela, como si uma parede negra me rodeasse e eu estivesse trancado ali com o pregador, algo semelhante aos prisioneiros na penitenciária, quando cada um se senta em um cubículo e não pode ver ninguém, mas somente o capelão.

Eu pensei que tudo o que ele dizia era dirigido para mim; estava persuadido que alguém conhecia meu caráter, e o havia descrito ao pregador e lhe havia contado tudo, e que me havia escolhido pessoalmente. Vamos, pensei que havia fixado seus olhos em mim, e tenho razões para crer que assim o fez, mas ainda assim, ele disse que não sabia nada de mim. Oh, que os homens ouvissem a palavra pregada, e que Deus os abençoasse de tal maneira enquanto eles ouvem, que eles sentissem que a palavra tem uma aplicação pessoal para seus corações.

Mas note novamente, o apóstolo havia recebido somente alguma informação sobre os perseguidos. Se lhe houvesse perguntado a quem perseguia, haveria respondido ―alguns pobres pescadores, que estão proclamando um impostor. Tenho a determinação de repreendê-los. Por que, quem são eles? São os mais pobres do mundo. A própria escória e desperdício da sociedade. Se fossem príncipes ou reis, talvez permitissem conservar suas opiniões; mas estes pobres, miseráveis e ignorantes indivíduos, eu não sei por que eles ainda são autorizados a
continuar com suas paixões. Devem ser perseguidos. Mas ainda, a maioria dos que estive perseguindo são mulheres: umas pobres criaturas ignorantes. Que direito tem essas pessoas de porem seus critérios acima do juízo dos sacerdotes? Não tem direito para uma opinião própria, e por tanto é muito correto que eu os desvie de seus tolos erros.

Mas vejam sob uma luz diferente a pergunta de Jesus. Ele não pergunta: ―Saulo, Saulo, por que perseguistes a Estevão? Ou, ―por que está a ponto de encerrar na prisão a gente de Damasco? Não. ―Saulo, Saulo, por que você está me perseguindo? Alguma vez você já pensou sobre este assunto dessa nova luz? Vocês tem um pobre homem que lhes presta serviço, usando um pano de saco comum. Ele é zé ninguémPoderiam rir dele. Não lhe diria nada, ou se o dissesse, não seriam
obrigados a dar conta do incidente, pois ele é um ninguém. Não se atreveriam rir assim de um duque ou de um conde. Cuidariam muito do seu comportamento se estivessem na companhia de gente nobre; mas devido este ser um homem pobre, se sentem com liberdade para rir de sua religião. Aquele individuo que se veste de pano de saco é Jesus Cristo mesmo! Como o fizerem para um de Seus pequeninos, o têm feito a Ele. Se já lhes ocorreu alguma vez o pensamento que quando riem de
alguém, que não estão rindo dessa pessoa, mas sim de seu Senhor? Se você já pensou ou não, é uma grande verdade, que Jesus Cristo recebe todas as injúrias que são feitas a Seu povo, como se fossem feitas contra Ele mesmo.

Você trancou sua esposa outra noite porque ela frequenta a casa de Deus, não é certo? Quando estava ali trancada, tremendo pelo ar frio da meia-noite, suplicando que a deixasse entrar, se teus olhos estivessem muito abertos, teriam visto o Senhor de vida e glória tremendo ali, e poderia te falar: ―Saulo, Saulo, por que você está me perseguindo? E então teria compreendido que é um pecado muito mais
grave do que você imaginou que era. Você riu da menina outro dia porque cantava um hino simples e evidentemente o cantava do fundo do coração. Você sabia – ou se não sabia, deveria saber agora – que você estava rindo de Cristo? Sabia que quando se divertia com ela, você estava tirando sarro de seu Senhor, e que Jesus Cristo registrou esse riso em Seu grande livro, como uma ofensa feita a Sua pessoa? ―Por que me segues? Se pudesse ver Cristo entronizado no céu, reinando ali nos esplendores de Sua majestade, riria DEle? Se pudesse vê-lo sentado em
Seu grandioso trono vindo para julgar o mundo, você riria DEle? Oh, assim como todos os rios vão para o mar, assim todos os riachos das igrejas que sofrem correm para Cristo. Se as nuvens estão cheias de chuva, derramam-se sobre a terra; e se o coração do cristão está cheio de dores ele se inclina no peito de Jesus, Jesus é o grandioso depósito de todas as aflições de Seu povo, e quando você ri de Seu povo, ajuda a preencher esse depósito até a borda; e um dia explodirá na fúria de seu
poder e as águas te levarão, e o fundamento de areia na qual sua casa está construída cederá, e logo, o que você fará quando estiver diante do rosto Daquele que você tem escarnecido, e cujo nome tem depreciado?

Vamos fazer a pergunta de outra perspectiva. É muito razoável, e requer uma resposta. ―Saulo, Saulo, por que tu me persegues?. Saulo pode ter perguntado ao Senhor, ―o que eu fiz que te molestou? Quando estava na terra, disse alguma palavra contra teu caráter, estraguei sua reputação, feri sua pessoa, alguma vez te afligi, disse alguma palavra contra ti? Que dano te causei? Por que tem tanto rancor contra Mim? Se tivesse sido seu pior inimigo, e cuspido em tua face, não poderia estar mais zangado comigo do que agora. Mas, por que homem, estaria
irado com alguém que não te fez nenhum dano, que não tem te causado nenhum desgosto?Oh, por que me persegues? Talvez haja algo em meu caráter que mereça? Não fui puro, e santo, e diferente dos pecadores? Não andei fazendo o bem? Ressuscitei os mortos, sarei os
leprosos. Dei de comer as famintos. Vesti os desnudos. Por qual de todas estas obras me odeia? Por que me persegues?

A pergunta está igualmente dirigida a você no dia de hoje. Ah, homem, por que persegue a Cristo? Ele te faz a pergunta. Que mal lhe fez feito? Cristo o despojou alguma vez, o roubou, te feriu de alguma maneira? Será que Seu evangelho o deixou desamparado, de algum modo, sem o conforto da vida ou lhe causou algum dano? Não te atreveria a dizer isso. Se fosse o mormonismo de Joseph Smith, não me surpreenderia que o perseguisse, ainda que não tenha o direito de fazer até isso, pois ele poderia tirá-lo de sua querida esposa. Se fosse um sistema imundo e lascivo que minasse os fundamentos da sociedade, poderia considerar o direito de persegui-lo. Mas, ensinou Cristo alguma vez a seus discípulos que o roubassem, que o enganassem, ou que lhe maldissessem?

Será que Sua doutrina não ensina precisamente o oposto, e eles não são os seus seguidores, quando são fiéis a seu Senhor e a eles mesmos, exatamente o contrário disso? Por que odiar um homem que não lhe fez mal algum? Por que odiar uma religião que não interfere contigo? Se você mesmo não segue a Cristo, em que o afeta se os outros seguem? Você diz que afeta sua família; mostra-me amigo. Tem afetado sua esposa? Por acaso ela o ama menos do que antes? Ou é menos obediente? Não se atreveria a dizer isso. Tem afetado seu filho? Ele é
menos reverente contigo porque agora teme a Deus? É menos amoroso com você porque ama a Seu Redentor mais do que ninguém? Como Cristo tem lhe causado algum dano? Ele tem lhes alimentado com as misericórdias de Sua providência. As roupas que o vestem hoje são o dom de Sua generosidade. Ele tem preservado o ar que vocês respiram e, vocês o maldizem por isso?

Não foi recentemente que um anjo vingador tomou o machado para cortar a figueira e Deus disse: ―Corte-a, para que inutilize também a terra? E veio Jesus e segurou o braço do anjo e disse: ―Deixa-a, deixa-a ainda este ano, até que eu cave ao redor dela, e a salve.” Ele salvou tua vida, e você o maldiz por isso. Você blasfema contra Ele porque Ele salvou tua vida, e gasta sua respiração que é uma dádiva Dele,
maldizendo o Deus que tem lhe dado o fôlego da vida. Não tem ideias de quantos perigos Cristo o guardou em Sua providência. Não poderia calcular as inumeráveis misericórdias que são derramadas em seu regaço a cada momento, mas você não vê. E, contudo, maldizes o Salvador por misericórdias infinitas, pela graça que tua iniquidade não poderia deter, por um amor que não pode ser vencido por injúrias. Por tudo isso você o maldiz? Quanta vã ingratidão! De verdade você tem odiado e perseguido ao Senhor, ainda que Ele tenha te amado, e não te acusou de nenhum dano.

Agora, permitam-me apresentar uma vez mais um quadro do Senhor, creio que nunca, nunca o perseguiriam outra vez, se só pudessem ver. Oh, se só vissem ao Senhor Jesus, lhe amariam. Se só conhecessem Seu valor, não poderiam odiá-lo! Ele foi mais belo que todos os filhos dos homens. A persuasão morava em Seus lábios, como se todas as abelhas da eloquência trouxessem seu mel ai, e fizessem de Sua boca um favo de mel. Ele falou e falou de tal maneira falou que se um leão pudesse escutá-lo, teria se deitado e lamberia Seus pés. Oh! Quão amável Ele foi em Sua ternura! Lembrem-se da Sua oração quando os pregos atravessavam suas mãos: ―Pai, perdoa-os. Ao longo de toda Sua vida nunca ouviram-lhe disse sequer uma palavra contra aqueles que o perseguiam. Ele foi insultado, mas não devolveu a injúria.

Mesmo quando foi levado como ovelha ao matadouro, ficou calado diante de Seus tosquiadores, e não abriu Sua boca. Embora tenha sido mais belo que todos os filhos dos homens, tanto em Sua pessoa como em Seu caráter, no entanto, foi Varão de Dores. A aflição lavrou Seu rosto com seus mais profundos sulcos. Suas bochechas afundaram por causa de Sua agonia. Ele jejuava muitos dias, e sempre sofria de sede.

Trabalhava arduamente de manhã até a noite: depois passava a noite inteira em oração; e logo se levantava de novo para trabalhar – e tudo isso sem receber recompensa – sem esperar ou obter alguma coisa de ninguém. Não tinha uma casa, nem abrigo, nem ouro, nem prata. ―As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas Ele, o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça”.
Ele foi um homem perseguido, levado por Seus inimigos de um lugar para outro, sem algum amigo para ajudá-lo. Oh, se o tivessem visto; se tivessem visto Sua beleza e Sua miséria unidas, se tivessem visto Sua amabilidade frente à crueldade de Seus inimigos, seus corações se derreteriam. Vocês teriam dito: ―Não, Jesus, eu não posso te persegui-lo! Não, me ponho entre Tu e a luz queimante do Sol. Se não posso ser Seu discípulo, de todas as maneiras não serei Seu oponente.

Se este manto pode abrigar-lhe em Suas lutas no meio da noite, aqui está ele; e se este balde pode tirar água para Você, eu vou descer até o fundo do poço, e terás água suficiente; pois se não o amo, visto que Tu és tão pobre, tão triste, e tão bom, não posso te odiar. Não, não vou lhe perseguir!. Embora ainda tenha a segurança de que, se vierem a Cristo, diriam isso, no entanto, vocês realmente o têm perseguido em Seus discípulos, nos membros de Seu corpo espiritual, e por tanto, lhes faço esta pergunta: ―Saulo, Saulo, por que me persegues? Que Deus lhe ajude a responder essa pergunta, e a resposta será vergonha e embaraço.

II. Isso me leva ao segundo ponto: A REPREENSÃO CONTRA O OFENSOR. "Dura coisa te é recalcitrar contra os aguilhões." Há uma ilustração aqui. Há uma alusão ao aguilhão usado com os bois. Quando o boi é atrelado ao arado, se não mover-se com a rapidez desejada, o lavrador lhe espeta com uma vara comprida que tem uma ponta de ferro. Muitas vezes, logo que o boi sente a aguilhada, ao invés de
continuar, ele dá coices tão fortes quanto é possível. Desfere coices contra o aguilhão, fazendo que o ferro se crave em sua própria pata. É claro que o lavrador que o guia mantém sua aguilhada no mesmo lugar, e quanto mais frequentemente o boi dá coice, mas se fere. Mas deve continuar. Está nas mãos do homem a missão de governar a besta e ele o fará. É a própria opção do animal de desferir coices quantas vezes quiser, mas não faz dano algum ao seu condutor, senão somente a si mesmo. Verão que há muita beleza nesta ilustração, se eu a esmiuço e lhes fazer uma pergunta ou duas.

Dura coisa te é recalcitrar contra os aguilhões, pois, em primeiro lugar, não cumpre seu propósito. Quando o boi desfere coices contra o aguilhão, é para mostrar ressentimento ao labrador por tê-lo incitado a seguir adiante; mas ao invés de machucar o lavrador, fere-se a si mesmo. E você que tem perseguido a Cristo para deter o progresso de Seu Evangelho, deixe-me perguntar, tem sido bem sucedido nisso? Não, nem dez mil como você seriam capazes de deter o poderoso impulso das hostes espirituais dos eleitos de Deus. Se você pensa, oh homem, que pode deter o progresso da Igreja de Cristo, primeiro vá e encerre as doces influências das Plêiades1, e ordena ao globo terrestre que se aquiete e não gire ao redor das belas estrelas! Vá e pare diante dos ventos e ordena que cessem de ulular, e para na ponta de algum precipício remoto e comande o mar revolto que retroceda quando a maré está indo em direção à costa; e quando tiver detido o universo,
quando o sol, a lua e as estrelas tiverem obedecido a sua ordem, se o oceano lhe ouviu e obedeceu, então pode sair e deter o progresso onipotente da igreja de Cristo. Mas você poderá fazê-lo. ―Os reis da terra se levantam e os governos consultam juntamente contra o SENHOR e contra o seu ungido, dizendo: Rompamos as suas ataduras, e sacudamos de nós as suas cordas. Mas, o que dirá o Onipotente? Nem sequer se levantará para combater seus oponentes. ―Aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles. Então lhes falará na sua ira, e no seu furor os turbará. Eu, porém, ungi o meu Rei sobre o meu santo monte de Sião.

Para a Igreja não importa todo o ruído do mundo. ―Deus é nosso refugio e fortaleza, nosso socorro bem presente nas tribulações. Por isso não temeremos, embora a terra trema e os montes afundem no coração do mar, embora estrondem as suas águas turbulentas e os montes sejam sacudidos pela sua fúria. Ah, se nem os maiores exércitos prevaleceram, por acaso você pensa, oh homem insignificante, que em um combate corpo-a-corpo, será capaz de conquistar? Seu desejo pode ser suficientemente forte, mas esse desejo não se cumprirá nunca. Pode desejar ansiosamente, mas jamais logrará êxito. Mas mesmo considerando esta uma questão pessoal: você já obteve êxito alguma vez em deter a obra da graça no coração de alguém? Você riu de sua esposa para que ela renuncie sua
profissão, mas se ela é realmente convertida, nunca rirá o suficiente para fazê-la desistir.]

Talvez tenha tratado de aborrecer seu filho pequeno; mas se a graça está nesse garoto, eu desafio você e seu senhor diabo que afugentem essa graça. Ah, jovenzinho, você pode rir de seu companheiro de trabalho, mas ele te vencerá a longo prazo. Algumas vezes pode ficar envergonhado, mas não o fará mudar. Se fosse um hipócrita, iria fazer isso, e não se teria uma grande perda, mas se ele é
realmente um verdadeiro soldado de Cristo, pode suportar muito mais que os risos de um cabeça oca como você. Não deve nem por um momento se vangloriar supondo que ele terá medo. Ele terá que suportar um batismo de sofrimento maior que esse, e não se acovardará pela primeira chuva de tua pobre insensatez maliciosa e digna de compaixão.

1 As Plêiades são um grupo de estrelas na constelação do Touro. As primeiras referências às Plêiades são
encontradas nos livros Ilíada, escrito por volta de 750 a.C., e Odisseia, escrito por volta de 720 a.C.,
ambos de Homero, além dos escritos de Hesíodo. Estavam conectadas ao calendário agrícola dos gregos
antigos à epoca. Na Bíblia, consta três referências ao objeto (chamado de "Kiymah"), em Jó 9:7-9, Jó
38:31-33 e Amós 5:8. (Wikipédia)

Em relação a você, amigo comerciante, pode perseguir seu empregado, mas comprova que não o obrigará a ceder. Vamos, conheço um homem cujo chefe havia intentando arduamente obrigá-lo a que agisse contra sua consciência; mas ele disse: ―não, senhor. E o chefe pensou: ―bem, ele é um servo muito valioso; mas vou obrigá-lo se puder. Assim que o ameaçou dizendo que se não fizesse o que queria, iria despedi-lo do trabalho. O homem dependia desse trabalho, e não
sabia o que faria para ganhar seu sustento diário. Mas respondeu de imediato com honestidade ao seu chefe: ―senhor, eu não tenho nenhuma outra opção; lamentaria muito ter que deixá-lo, pois estou muito contente com você, mas se chegamos a esse ponto, senhor, prefiro morrer de fome que ao invés de submeter minha consciência a qualquer pessoa. O empregado se foi, e o chefe teve que sair correndo atrás dele para trazê-lo de volta. E o mesmo sucederá em cada caso.

Basta que os cristãos sejam fiéis, e se sairão bem em qualquer situação.
Dura coisa é dar coices contra eles, pois não pode lhes fazer dano. Eles vencerão, serão conquistadores por meio Daquele que os tem amado. Mas há outra maneira de expressá-lo. Quando o boi desfere coices contra o aguilhão, não obtém nenhum bem com isso. Pode chutar o quanto queira, mas não se beneficiará com tal atitude. Se o boi para e começa a arranca um pouco de erva, ou um pouco de feno, vamos, então seria sábio, talvez, ficar quieto, mas ficar quieto para receber socos e pontapés, simplesmente para que o ferro entre em sua carne, é algo bem mais insensato.

Agora eu te pergunto, qual é o ganho em se opor a Cristo?
Suponha que você diz não gostar de religião. Que ganhará ao odiá-la?
Eu te direi qual a sua recompensa. Ganhará esses olhos roxos com que amanhece às vezes na segunda de manha, depois de uma noite no domingo de bebedeira. Direi sua retribuição, jovenzinho. Você ganhou essa constituição quebrantada, que, ainda que agora tenha te orientado aos caminhos da virtude, permanecerá contigo até o caixão. Qual é o seu ganho? Vamos, alguns de vocês que poderiam ter sido membros respeitáveis da sociedade, mas que agora possuem esse chapéu gasto, esse velho terno esfarrapado e essa descuidada expressão de bêbado, e
esse caráter que você gostaria de abandonar e despojar-se, pois não lhe traz benefício algum. Isso é tudo o que você tem ganhado opondo-se a Cristo.

O que você tem ganhado opondo-se a Ele? Pois, bem, uma casa sem móveis, pois por sua embriaguez teve que vender tudo de valor que possuía. Seus filhos vestem trapos, e sua esposa vive na miséria, e sua filha maior, talvez, se entregou a vergonha, e teu filho se levanta para maldizer o Salvador, exatamente como você tem feito. Qual é o prêmio de se opor a Cristo? Qual é o homem no mundo que alguma vez obteve recompensa por se opor a Ele? Há uma grande perda experimentada, mas quanto a algum lucro, não existe nada parecido com isso.

Mas você afirma que, ainda que tenha se oposto a Cristo, todavia é alguém moral. Outra vez lhe pergunto: Tem ganhado algo, ainda assim, por se opor a Cristo? Acha que a sua família é mais feliz por isso? Tem lhe feito um pouco mais feliz? Sente que depois de rir de sua esposa, ou seu filho, ou de seu empregado, pode dormir mais tranquilamente? Considera que isso será algo que aquietará sua
consciência quando se aproxime a hora da sua morte? Lembre-se que morrerás, e, pensas que quando estiver agonizando, pensar que fizeste o melhor que pode para destruir as almas das outras pessoas lhe proporcionará algum consolo? Não, deves confessar que é um pobre jogo. Você não está se beneficiando por isso, mas está prejudicando a si próprio. Ah, beberrão, continue com sua bebedeira, e lembre-se que cada episódio alcoólico deixa para trás de você uma praga, a qual um dia terá que ressentir. É prazeroso pecar hoje, mas não será prazeroso perder a colheita amanhã; as sementes do pecado são doces quando as semeamos, mas o fruto é aterrorizantemente amargo quando o armazenamos no final. O vinho do pecado tem sabor doce quando bebemos, mas é fel e vinagre nas entranhas. Tenham cuidado, vocês que odeiam a Cristo e se opõem ao Seu Evangelho, pois tão certamente como o Senhor Jesus Cristo é o Filho de Deus, e Sua religião é verdadeira, vocês estão empilhando sobre vossas cabeças uma carga de males, ao invés de obter algum bem. ―Saulo, Saulo, por que tu me persegues, Dura coisa te é recalcitrar contra os aguilhões.

Mas independentemente dos coices que desfere, o boi tem que seguir adiante. Temos visto um cavalo que se encontra quieto na rua, e o condutor, que não tinha muita paciência, tem lhe batido tanto, que nos perguntamos como o pobre cavalo pode permanecer quieto debaixo de tal chuva de golpes; mas observamos que no fim, o cavalo é obrigado a continuar, e nos perguntamos: o que ganhou ficando parado? O mesmo sucede com vocês. Se o Senhor quer converter-lhe em um
cristão, pode dar coices contra o cristianismo, Ele o terá finalmente. Se Jesus Cristo quer sua salvação, pode maldizê-lo, mas Ele fará que pregue Seu Evangelho algum dia, se quer que você o faça. Ah, se Cristo desejasse, Voltaire, que O difamou, poderia ter sido um segundo apóstolo Paulo. Não poderia resistir à graça soberana, se Cristo assim o tivesse determinasse. Se alguém houvesse dito ao apóstolo Paulo quando ia pelo caminho de Damasco, que um dia se converteria em um pregador do cristianismo, sem dúvida haveria rido disso como se isso fosse algo absurdo sem sentido; mas o Senhor tinha a chave de sua vontade, e Ele a manejou como quis. E assim sucederá contigo, se Ele decidiu que você será um de seus seguidores: "Se, como o eterno mandato reza, A graça toda poderosa conquista esse homem,"
A graça toda poderosa te conquistará e o mais sangrento dos perseguidores será convertido no mais valoroso dos santos. Então, por que me persegues? Talvez esteja desprezando ao mesmo Salvador que um dia amarás; está tratando de derrubar a mesma casa que um dia há de edificar. Talvez esteja perseguindo os homens que chamará seus irmãos e irmãs. É sempre recomendável que um homem não vá tão
longe, que logo não possa regressar respeitavelmente. Então, não vá tão longe a sua oposição a Cristo, pois em qualquer momento pode ser que se ache tão feliz em inclinar-se aos Seus pés.

Mas temos esta triste reflexão: se Cristo não te salva, você deve continuar. Você pode dar coices contra o aguilhão, mas não poderá ir dos Seus domínios; pode desferir coices contra Cristo, mas não pode tirá-lo de Seu trono; não pode arrastá-lo para fora do céu. Poderá dar coices contra Ele, mas não poderá impedir que lhe condene no final.
Você poderá rir Dele, mas com suas risadas não poderá evitar o dia do juízo. Poderá mofar-se da religião, mas todas suas zombarias não poderão elimina-lá. 

Poderás escarnecer do céu, mas todas as seus insultos não silenciarão nenhuma nota sequer das harpas dos remidos. Não, é o mesmo que dar coices ou não, não há diferença exceto para ti mesmo. Oh, quão insensato deves ser, posto que persiste em uma rebelião que é prejudicial unicamente para sua própria alma. Essa rebelião não causa nenhum dano a Ele, a quem você odeia, mas, se Ele
quisesse, poderia detê-la, e se não a detém, pode vingá-la e a vingará.

III. E agora concluo dirigindo-me a certas pessoas, cujos corações já têm sido tocados. Sente esta manhã sua necessidade de um Salvador? Estás consciente de sua culpa por haver se oposto a Ele, e o Espírito Santo tem te dado à vontade de confessar seus pecados? Estás clamando: "Deus, se propicio a mim, pecador"? Então tenho BOAS NOTÍCIAS para você. Paulo, que perseguia a Cristo, foi perdoado. Ele
disse que era o principal dos pecadores, mas obteve misericórdia. Tu também a obterás. E mais, Paulo não só obteve misericórdia, também obteve honra. Foi chamado para ser um honroso ministro do Evangelho de Cristo, e você pode sê-lo também. Se, arrepender-se, Cristo pode lhe usar para atrair outros. Surpreende-me quando vejo quantos dos piores pecadores tem se convertido em homens utilizados pelo Senhor. Vê John Bunyan? Está maldizendo a Deus. Sobe ao campanário e toca a campainha no dia de domingo, porque gostava de fazê-lo, mas quando a igreja está aberta, ele está praticando o jogo de bolos sobre o pasto. Ali
está no balcão do bar: ninguém ri mais forte do que John Bunyan.

Algumas pessoas se dirigem para a igreja; ninguém lhes amaldiçoa tanto como John. Ele é o líder em todos os vícios. Se há um galinheiro para roubar, John é o homem. Se há alguma iniquidade para fazer, se foi feito algum mal na paróquia, não precisa adivinhar duas vezes, John Bunyan está por trás disso. Mas, quem é aquele que enfrenta um juízo perante o magistrado? Quem acabou de ouvir a poucos momentos atrás: "Se me permite sair da prisão hoje, vou pregar o Evangelho amanhã, com a ajuda de Deus"? Quem foi o que esteve encerrado doze
anos na prisão, e quando lhe disseram que podia sair se prometesse que não iria pregar, replicou: "Não, vou ficar aqui até que mofo cresça sobre minhas pálpebras, mas devo pregar e vou pregar o Evangelho de Deus tão pronto como alcançar minha liberdade"? Pois esse é John Bunyan, o mesmo homem que maldisse a Cristo outro dia. Um líder do vício se converteu em um sonhador glorioso, no próprio líder dos exércitos de Deus. Observem o que Deus fez por ele, e o que Deus fez por ele, fará por ti, se te arrependeres agora e buscar a misericórdia de
Deus em Cristo Jesus.

"Ele pode fazer, Ele quer fazê-lo, não duvides mais." Oh, confio que estou me dirigindo a pessoas que tem odiado a Deus, mas que são, sem apreensão, os eleitos de Deus; que têm depreciado o Senhor, mas que são comprados com sangue; que tem
dado coices contra o aguilhão, mas que a graça toda poderosa arrebatará adiante. Há algumas pessoas, não duvido que tenham difamado a Deus em Sua face, mas que algum dia cantarão aleluias diante do Seu trono; alguns que se tem entregado a luxúrias repugnantes, que um dia vestirão suas roupas brancas, e correrão seus
dedos pelas cordas das harpas de ouro dos espíritos glorificados no céu.

Que felicidade é ter tal Evangelho para prega-lo a tais pecadores! Cristo é pregado ao perseguidor. Venha a Jesus, a Quem você tem perseguido.
"Venha, e seja bem-vindo, pecador, vem."
E agora, aguente-me um momento para dirigir-me a vocês outra vez. Olhe-me no rosto a probabilidade de ter poucas oportunidades mais de dirigir-me a vocês sobre temas referentes as suas almas. Meu querido leitor, não irei atribuir a nada, senão somente isso: ―Não tenho evitado anunciar todo o conselho de Deus, e tenho por testemunha a Deus com quantos suspiros, e lágrimas, e orações tenho trabalhado
para seu bem. Milhares têm sido chamados, assim creio eu, desse lugar; entre vocês, dos que estou vendo, há um grande número de pessoas convertidas; de acordo com seu próprio testemunho têm tido uma mudança completo, e já agora não são o que eram antes. Mas estou consciente disso, que há muitas de vocês que tem assistido aqui, já quase por dois anos, que seguem sendo os mesmos que eram. Há alguns de vocês cujos corações não foram tocados. Algumas vezes choram, entretanto, suas vidas não foram transformadas; ainda se
encontram em “laço de iniquidade e fel de amargura”.

Bem, senhores, se não voltar a me dirigir a vocês novamente, há um favor que lhes peço. Se não se voltam para Deus, se estão resolvidos a se perderem, se não querem ouvir minha reprovação nem voltar-se para minha exortação, somente lhes peço esse favor; pelo menos me deixem saber, e permitam-me ter esta confiança, que estou livre do sangue de vocês. Creio que devem confessar isso. Não tenho evitado
pregar sobre o inferno com todos os seus horrores, a tal ponto que riem de mim, como se sempre pregasse a respeito. Não tenho fugido de pregar sobre os temas mais doces e agradáveis do Evangelho, a tal ponto de dizerem que minha pregação se tornou afeminada, ao invés de conter o vigor masculino de um Boanerges. Não tenho me esquivado de pregar sobre a lei; esse grandioso mandamento tem feito eco em seus ouvidos: ―Amarás o Senhor teu Deus, e ame a seu próximo como a si mesmo. 

Nunca temi os grandes, nem buscado seus sorrisos, tenho repreendido a nobreza como repreenderia ao camponês, e cada um de vocês a tempos tenho dado alimento diário. Eu creio que pelo menos isto se pode dizer de mim: ―Aqui está um que jamais temeu o rosto de um homem, e espero não temê-lo nunca. Em meio das afrontas, das reprovações e das críticas, tenho buscado ser fiel a vocês e ao meu
Deus. Se apesar disso são condenados, permitam-me ter isso como consolação por sua miséria, quando pense nesse pensamento aterrorizador: que não tem sido condenados por não haver sido chamados; não ter sido condenados por falta de alguém que chorasse por vocês, e não ter sido condenados, permitam-me acrescentar, por falta de orações por vocês.

No nome Daquele que julgará vivos e mortos de acordo com meu Evangelho, e que virá nas nuvens do céu, e por aquele temível dia quando os alicerces desta terra forem abalados, e quando os céus desabarem sobre vossas cabeças, por esse dia quando ―Apartai-vos de mim malditos, ou ―Venham benditos, deva ser a alternativa terrível, lhes exorto, guardem estas coisas em seus corações, e assim como eu
vou enfrentar a face do meu Deus para prestar contas por minha honestidade para com vocês, e por minha fidelidade para com Ele, lembrem-se, vocês deverão comparecer em Seu tribunal, para prestar contas de como ouviram e como reagiram após ouvirem; e, ai de vocês se, tendo grandes privilégios como Cafarnaum, sejam abatidos como Sodoma e Gomorra, ou mais abaixo que elas, porque não se arrependeram.
Oh, Senhor! Torna estes pecadores para ti, por Jesus Cristo, nosso Senhor! Amém.

 W W W . P R O J E T O S P U R G E O N . C O M . B R