domingo, 5 de outubro de 2014

Corações despedaçados !


Porque que um homem vai até Cristo ?

 
A Bíblia nos diz que por natureza os homens não são voluntários: "... não quereis vir a mim para terdes vida" (João 5:40). O Senhor Jesus também disse: "Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer" (João 6:40).

Estas passagens do Novo Testamento concordam com nossa passagem do Velho Testamento( “O teu povo se apresentará voluntariamente no dia do teu poder, com santos ornamentos: como vindo do próprio seio da alva, será o orvalho da tua mocidade. " - Salmos 110:3).

Todas elas dizem que o povo de Deus será voluntário no dia do poder de Deus. Pelo fato de nenhum homem ser voluntário por natureza, tem que haver uma obra da graça de Deus no coração de um homem. Somente quando houver esta obra da graça os homens serão voluntários no dia do poder de Deus. O povo de Deus deve ser um povo voluntário. Podemos dizer quem são os filhos de Deus pelo fato de serem voluntários. Prego a muitas pessoas diversas vezes. Falo a elas sobre o inferno. Aviso-as para fugirem dele. Falo a elas sobre Cristo, imploro-lhes que olhem para Cristo para serem salvas. Mas às pessoas não estão dispostas a olhar para Cristo. Ou o dia do poder de Deus ainda não veio ou elas não são o povo de Deus. Seu povo será voluntário no dia do Seu poder. Naquele dia, as pessoas confiarão suas vidas à graça de Deus; confiarão em Cristo que morreu na cruz para salvá-las.

O que tornou essas pessoas voluntárias? A única resposta é que a graça de Deus transformou sua relutância em voluntariedade. Se a vontade do homem é livre para agir certo ou errado, por que as pessoas não se voltam para Deus? A razão é que a vontade do homem não é livre. A graça de Deus deve vir e agir no coração, Somente então um homem será voluntário no dia do poder de Deus.

O povo de Deus deseja ser salvo. Assim, as pessoas desejam trabalhar para Deus. Elas vão voluntariamente à casa de Deus para adorá-lO. Elas dão generosamente quando há necessidade de dinheiro na igreja. Elas servem a Deus de várias formas, com alegria e espontaneidade, no dia do poder de Deus.

Devemos notar o caráter desse povo. Ele "se apresentará voluntariamente no dia do teu poder". Ele "se apresentará voluntariamente... com santos ornamentos". Este povo voluntário estará vestido com santidade. Estará vestido com a justiça, a santidade de Cristo. A graça de Cristo lhe é concedida. O povo de Cristo não tem santidade em si próprio. A santidade que tem lhe é dada por Deus. Deus transforma pecadores em santos. Somente o povo cristão tem verdadeira santidade. O povo de Cristo é um povo voluntário e santo.

As próximas palavras são difíceis de se entender: "...como vindo do próprio seio da alva...". O que elas significam? Algumas pessoas dizem que estas palavras significam que o povo de Deus será voluntário desde o início da vida. A passagem não significa isso. De onde virá o povo de Deus? Como deve ser trazido? Você já viu gotas de orvalho de manhã bem cedo? Há muitas. São belíssimas. De onde vieram? A resposta da natureza é que vieram "do próprio seio da alva". O povo de Deus virá dessa mesma forma. Virá de maneira muito rápida e misteriosa, como se viesse "do próprio seio da alva", como as gostas de orvalho. As gotas de orvalho são algo misterioso. Ninguém realmente sabe como vêm. O povo de Deus também vem misteriosamente. Um pregador pode não ser eloquente ou poderoso. Então, como foram as pessoas convertidas quando este homem pregou? Elas vieram " do próprio seio da alva", misteriosamente. Quem fez as gotas de orvalho? Deus fez a gotas de orvalho. Ele não precisa do homem para ajudá-lO. O povo de Deus é salvo da mesma forma. As pessoas são chamadas por Deus e são trazidas por Deus. Elas são abençoadas por Deus. O povo de Deus vem "do próprio seio da alva".

Vocês já notaram quantas gotas de orvalho há na manhã? Há uma grande quantidade ao mesmo tempo. Todavia tudo é feito silenciosamente. Assim também os filhos de Deus virão "do próprio seio da alva". Nenhuma palavra pode realmente explicar o que isto significa. Vocês podem ficar ao ar livre de manhã cedo, quando o sol está começando a raiar. Os campos estarão brilhando com gotas de orvalho. Vocês perguntarão: "De onde vieram todas essas gotas de orvalho?" A resposta é que vieram "do próprio seio da alva"! Quando muitas pessoas são salvas, quando vocês as vêem vindo de maneira misteriosa e silenciosa, podem compará-las ao orvalho da alva. Vocês perguntam: "De onde vieram essas pessoas remidas?" A resposta é que vieram "do próprio seio da alva."



3. Passemos agora à segunda parte de nosso texto. Na primeira parte, uma promessa foi feita a Cristo sobre Seu povo. Nesta segunda parte, outra promessa é feita a Cristo. "... será o orvalho da tua mocidade". O evangelho é vitorioso porque Cristo tem o orvalho de Sua mocidade. Sempre houve líderes entre os homens. Quando esses líderes eram jovens e fortes, inspiravam os homens com coragem. Então esses líderes envelhecem. Quando estão velhos, não podem mais liderar os homens nas batalhas. O mesmo não acontece com Jesus Cristo. Ele ainda tem o orvalho de Sua mocidade. "Jesus Cristo ontem e hoje é o mesmo, e o será para sempre" (Heb. 13:8). Ele nunca envelhecerá. Nosso líder sempre é um Cristo jovem. Cristo era "sobre todos, Deus bendito para todo o sempre" (Rom. 9:5) em Sua mocidade. Cristo foi então revestido do poder onipotente de Deus. Ele é o mesmo agora. Ele sempre terá o orvalho de Sua mocidade.


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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

No que consiste o verdadeiro arrependimento?


O quebrantamento santo que faz um homem lamentar o seu pecado surge de uma operação divina. O homem caído não pode renovar seu próprio coração. O diamante pode mudar seu próprio estado para tornar-se maleável, ou o granito amolecer a si mesmo, transformando-se em argila? Somente aquele que estendeu os céus e lançou os fundamentos da terra pode formar e reformar o espírito do homem. O poder de fazer que da rocha de nossa natureza fluam rios de arrependimento não está na própria rocha: “Olharão para aquele a quem traspassaram” - Zacarias 12.10.


O poder jaz no onipotente Espírito de Deus... Quando Deus lida com a mente do homem, por meio de suas operações secretas e misteriosas, Ele a enche com uma nova vida, percepção e emoção. “Deus... me fez desmaiar o coração” (Jó 23.16), disse Jó. E, no melhor sentido, isso é verdade. O Espírito Santo nos torna maleáveis e nos tornamos receptíveis às suas impressões sagradas... Agora, quero abordar o âmago e a essência de nosso assunto.


O enternecimento do coração e o lamento pelo pecado são produzidos por olharmos, pela fé, para o Filho de Deus traspassado. A verdadeira tristeza pelo pecado não acontece sem o Espírito de Deus. Mas o Espírito de Deus não realiza essa tristeza sem levar-nos a olhar para Jesus crucificado. Não há verdadeiro lamento pelo pecado enquanto não vemos a Cristo... Ó alma, quando você chega a contemplar Aquele para quem todos deveriam olhar, Aquele que foi traspassado, então seus olhos começam a lamentar aquilo pelo que todos deveriam chorar — o pecado que imolou o seu Salvador!Não há arrependimento salvífico sem a contemplação da cruz... O arrependimento evangélico é o único arrependimento aceitável. E a essência desse arrependimento é olhar para Aquele que foi moído pelos pecados... Observe isto: quando o Espírito Santo realmente opera, Ele leva a alma a olhar para Cristo. Nunca uma pessoa recebeu o Espírito de Deus para a salvação, sem que tenha recebido dEle o olhar para Cristo e o lamentar por seus pecados.


A fé e o arrependimento são gerados e prosperam juntos. Ninguém deve separar o que Deus uniu! Ninguém pode arrepender-se do pecado sem crer em Jesus, nem crer em Jesus sem arrepender-se do pecado. Olhe, então, com amor para Aquele que derramou seu sangue, na cruz, por você. Por meio desse olhar, você obterá perdão e quebrantamento. Quão admirável é o fato de que todos os nossos males podem ser curados por um único remédio: “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os limites da terra” (Is 45.22). Contudo, ninguém olhará para Cristo sem que o Espírito de Deus o incline a fazer isso. Ele não conduz uma pessoa à salvação, se ela não se rende às suas influências e não volve seu olhar para Jesus...


O olhar que nos abençoa, produzindo quebrantamento de coração, é o olhar para Jesus como Aquele que foi traspassado. Quero me demorar nisso por um momento. Não é somente o olhar para Jesus como Deus que afeta o coração, mas também olhar para este mesmo Senhor e Deus como Aquele que foi crucificado por nós. Vemos o Senhor traspassado, e, em seguida, inicia-se o traspassamento de nosso coração. Quando o Espírito Santo nos revela Jesus, os nossos pecados também começam a ser expostos...


Venham, almas queridas, vamos juntos à cruz, por um pouco, e notemos quem era Aquele que recebeu a lançada do soldado romano. Olhe para o seu lado e observe aquela terrível ferida que atingiu seu coração e desencadeou um duplo fluxo de sangue. O centurião disse: “Verdadeiramente este era Filho de Deus” (Mt 27.54). Aquele que, por natureza, é Deus e governa sobre tudo, sem o Qual “nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3), tomou sobre Si mesmo nossa natureza e se tornou homem, como nós, mas não tinha qualquer mácula de pecado. E, vivendo em forma humana, foi obediente até à morte, morte de cruz. Foi Ele quem morreu! Ele, o único que possui a imortalidade, condescendeu em morrer! Ele, que era toda a glória e poder, sim, Ele morreu! Ele, que era toda a ternura e graça, sim, Ele morreu! Infinita bondade esteve pendurada na cruz! Beleza indescritível foi traspassada com uma lança! Essa tragédia excede todas as outras! Por mais perversa que tenha sido a ingratidão do homem em outros casos, a sua mais perversa ingratidão se expressou no caso de Jesus! Por mais horrível que tenha sido o ódio do homem contra a virtude, o seu ódio mais cruel foi manifestado contra Jesus! No caso de Jesus, o inferno superou todas as suas vilezas anteriores, clamando: “Este é o herdeiro; ora, vamos, matemo-lo” (Mt 21.38).


Deus habitou entre nós, e os homens não O aceitaram. Visto que o homem foi capaz de traspassar e matar o seu Deus, ele cometeu um pecado horrível. O homem matou o Senhor Jesus Cristo e O traspassou com uma lança! Nesse ato, o homem mostrou o que fariam com o próprio Eterno, se pudesse chegar até Ele. O homem é, no coração, assassino de Deus. Ele se alegria se Deus não existisse. Ele diz em seu coração: “Não há Deus” (Sl 14.1). Se a sua mão pudesse ir tão longe quanto o seu coração, Deus não existiria nem mesmo por mais uma hora. Isto dá ao traspassamento de nosso Senhor uma forte intensidade de pecado: foi o traspassamento de Deus.


Por quê? Por que razão o bom Deus foi assim perseguido? Oh! pelo amor de nosso Senhor Jesus Cristo, pela glória de sua Pessoa, pela perfeição de seu caráter, eu lhe peço — admire-se e envergonhe-se de que Ele foi traspassado! Não foi uma morte comum. Aquele assassinato não foi um crime comum. Ó homem, Aquele que foi traspassado com a lança era o seu Deus! Na cruz, contemple o seu Criador, o seu Benfeitor, o seu melhor Amigo!


Olhe firmemente para Aquele que foi traspassado e observe o Sofredor que é descrito na palavra “traspassado”. Nosso Senhor sofreu severa e terrivelmente. Não posso, em uma mensagem, descrever a história de seus sofrimentos — as tristezas de sua vida de pobreza e perseguição; as angústias do Getsêmani e do suor de sangue; as tristezas de seu abandono, traição e negação; as tristezas no palácio de Pilatos; os golpes de chicotes, o cuspe e o escárnio; as tristezas da cruz, com sua desonra e agonia... Nosso Senhor foi feito maldição por nós. A penalidade do pecado ou o que lhe era equivalente, Ele a suportou, “carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados” (1 Pe 2.24). “O castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53.5).


Irmãos, os sofrimentos de Jesus devem amolecer nosso coração! Nesta manhã, lamento o fato de que não me entristeço como deveria. Acuso a mim mesmo daquele endurecimento de coração que eu condeno, visto que posso contar-lhes essa história sem enternecimento de coração. Os sofrimentos de meu Senhor são indescritíveis. Examinem e verifiquem se já houve tristeza semelhante à de Jesus! A sua tristeza foi abismal e insondável... Se você considerar firmemente a Jesus traspassado por nossos pecados e tudo que isso significa, seu coração se dilatará! Mais cedo ou mais tarde, a cruz desenvolverá todo sentimento que você será capaz de produzir e lhe dará capacidade para mais. Quando o Espírito Santo põe a cruz no coração, o coração se dissolve em ternura... A dureza de coração desaparece quando, com profundo temor, contemplamos a Jesus sendo morto.


Devemos também observar quem foram os que traspassaram a Jesus. “Olharão para aquele a quem traspassaram.” Ambos os verbos se referem às mesmas pessoas. Nós matamos o Salvador, nós que olhamos para Ele e vivemos... No caso do Salvador, o pecado foi a causa de sua morte. O pecado O traspassou. O pecado de quem? Não foi o pecado dEle mesmo, pois Ele não tinha pecado, e nenhum engano se achou em seus lábios. Pilatos disse: “Não vejo neste homem crime algum” (Lc 23.4). Irmãos, o Messias foi morto, mas não por causa dEle mesmo. Nossos pecados mataram o Salvador. Ele sofreu porque não havia outra maneira de vindicar a justiça de Deus e de prover-nos um escape da condenação. A espada, que deveria cair sobre nós, foi despertada contra o Pastor do Senhor, contra o Homem que era o Companheiro de Jeová (Zc 13.7)... Se isso não quebranta nem amolece nosso coração, observemos por que Ele foi levado a uma posição em que poderia ser traspassado por nossos pecados. Foi o amor, poderoso amor, nada mais do que o amor, que O levou até à cruz. Nenhuma outra acusação Lhe pode ser atribuída, exceto esta: Ele era culpado de amor excessivo. Ele se colocou no caminho do traspassamento, porque resolvera salvar-nos... Ouviremos isso, pensaremos nisso, consideraremos isso e permaneceremos apáticos? Somos piores do que os brutos? Tudo que é humano abandonou a nossa humanidade? Se Deus, o Espírito Santo, está agindo agora, uma contemplação de Cristo derreterá o nosso coração de pedra...


Quero dizer-lhes ainda, ó amados: quanto mais olharmos para Jesus crucificado, tanto mais lamentaremos o nosso pecado. A reflexão crescente produzirá sensibilidade crescente. Desejo que olhem muito para Aquele que foi traspassado, para que odeiem cada vez mais o pecado. Livros que expõem a paixão de nosso Senhor e hinos que cantam a sua cruz sempre foram bastante queridos pelos crentes piedosos, por causa de sua influência sobre o coração e a consciência deles. Vivam no Calvário, amados, até que viver e amar se tornem a mesma coisa. Diria também: olhem para Aquele que foi traspassado, até que o coração de vocês seja traspassado.



Um antigo teólogo dizia: “Olhe para a cruz, até que tudo que está na cruz esteja em seu coração”. E acrescentou: “Olhe para Jesus, até que Ele olhe para você”. Olhem com firmeza para o sua Pessoa sofredora, até que Ele pareça estar volvendo sua cabeça e olhando para você, assim como o fez com Pedro, que saiu e chorou amargamente. Olhe para Jesus, até que você veja a si mesmo. Lamente por Ele, até que lamente por seu próprio pecado... Ele sofreu em lugar, em favor e em benefício de homens culpados. Isso é o evangelho. Não importa o que os outros preguem, “nós pregamos a Cristo crucificado” (1 Co 1.23). Sempre levaremos a cruz na vanguarda. A essência do evangelho é Cristo como substituto do pecador. Não evitamos falar sobre a doutrina do Segundo Advento, mas, antes e acima de tudo, pregamos Aquele que foi traspassado. Isso levará ao arrependimento evangélico, quando o Espírito de graça for derramado.

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